outubro 7, 2015

Um ator chamado Johnny Depp
por: João Lopes | DN Portugal

Há um valor simbólico na interpretação de Johnny Depp em Black Mass – Jogo Sujo que transcende o trabalho específico de composição da figura do gangster James “Whitey” Bulger. Não que esse trabalho seja banal. Bem pelo contrário: a definição da personagem, ainda que alicerçada numa elaborada manipulação do corpo, em particular do rosto (proeza que constitui uma imagem de marca de momentos marcantes da carreira de Johnny Depp), envolve uma caracterização psicológica que oscila entre o enigma sem palavras e a transparência mais inquietante. Deparamos, assim, com um filme em que a função do ator não tem nada de instrumental, quer dizer, não é secundarizada em nome de qualquer ostentação tecnológica.
Não é banal esta diferença, quanto mais não seja porque há tendências da produção americana contemporânea que, mesmo quando integram grandes estrelas, tendem a reduzi-las a mero suporte de personagens que, literalmente ou não, foram reduzidas a títeres de banda desenhada. Lembremos o caso de Robert Downey Jr., outro dos nomes fundamentais da geração (nascida na década de 60) a que Johnny Depp pertence: a sua redução a um “boneco” entaipado na armadura metálica do Homem de Ferro dos filmes da Marvel constitui um exemplo dramático de como se vai esvaziando um talento genuíno.
É certo que Johnny Depp vem de alguns aparatosos desastres, o último dos quais, O Excêntrico Mortdecai, revelava uma assustadora indigência conceptual. Seja como for, em sua defesa, importa reconhecer que nunca desistiu de ser ator, de testar os limites da expressão humana através de personagens invulgares e desafiantes – para além do seu talento pessoal, o que está em jogo é a (re)valorização do cinema como algo mais do que uma coleção de efeitos sem nada de especial.

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