Entrevista de Johnny Depp à GQ Magazine British

Johnny Depp não será ocultado

Fotos na Galeria >>> Plan de La Tour – 16/ago/2018 ( GQ British Magazine nov/2018) Fotos by Greg Williams

Tradução da entrevista de Johnny Depp à GQ Magazine British

Traduzida e revisado por Bruna França e Lucas da Equipe DeppLovers

JONATHAN HEAF’s GQ Magazine UK [PT-BR]: “Johnny Depp não será enterrado”

O Death Metal começa as 14h43. Está alto. E está vindo de dentro da igreja. O barulho é uma orgulhosa e desgovernada fúria, como um touro premiado sendo arrastado para o matadouro por seu anel de cobre no nariz. O silêncio campestre da zona rural do sul da França, o canto das cigarras, e a brisa morna que sai do Mediterrâneo é arrancado pela espinha por cantos demoníacos e pedais de distorção. Todo mundo está do lado de fora, alguns bebem taças de pastis de marseille no calor de 37 C°. Olham para a igreja e depois olham uns para os outros.

Apesar da ruptura, da tranquilidade rompida, é um bom sinal para aqueles que querem uma audição com nosso anfitrião. Havia rumores do homem estar dormindo na pequena capela de um lote — seu confessionário original fora transformado em uma dispensa e seu monastério agora usado como um ateliê, com uma grande quantidade de telas inacabadas encostadas pelas paredes — deve estar acordado. Ninguém poderia dormir durante o que parecia ser o despertador do próprio Satanás.

Há duas semanas houve um convite, confirmado ontem a noite, para vir à vila do Johnny Depp e conversar abertamente com ou sem ressalvas. Se você acorda as 5h em North London, pega o primeiro voo da British Airways saindo de Heathrow as 7h45 e então pega um táxi por mais uma hora ao leste da longa costa amarela, passando por Cannes, Fréjus e não muito por Saint-Tropez, você chegará na cidade rural de Le Hameau De Gassin, cercado por fileiras de parreiras ainda jovens, formando trilhas como tranças da natureza. Seus frutos começam a ficar roxos, inchar e ceder com o novo peso.

O condomínio de Depp com aproximadamente sete ou oito casas de pedra fica acima dessa quieta e pouco notável antiga cidade, com uma vista que se estende por todo o ondulante Mar Lígure. Em um dia claro você pode caminhar até um dos vários e altos afloramentos rochosos da propriedade, forçar os olhos e ver a Ilha de Córsega e além disso, águas ricas em fábulas e mitos, onde estudiosos acreditam que foi onde Homer, de Odisséia, ordenou ser amarrado em seu próprio mastro para ouvir por si mesmo o canto das sereias.

Force ainda mais os olhos e talvez você consiga ver a costa oeste da Itália cintilando com Pisa, Gênova, ainda além disso, a beleza e corrupção de Florença. Mais cedo, eu cheguei aos portões do complexo, passando pelo diretor Tim Burton e sua família, que estavam fora em uma viagem de barco com muitas crianças bronzeadas e sorrindo. Burton esteve com Depp nas últimas semanas, aproveitando a utopia privada.

Tendo sido chamado para dentro, um carrinho de golfe dirigido por um nativo Daniele me leva até o conjunto principal. Daniele — um homem de 60 e tantos anos com um impressionante bigode cor de creme e um longo rabo de cavalo marfim, que por acaso, se assemelha surpreendentemente ao de Asterix, do famoso quadrinho francês de René Goscinny e Albert Urdezo — é o homem de quem Depp comprou o terreno e casas do século 19, há 20 anos. Foi comprada por Depp e Vanessa Paradis, sua parceira da época, como um santuário, um lugar para fugir com as crianças, para estar distante de todos os feixes de Los Angeles e Paris.

Quando a propriedade foi listada no mercado em 2015 por $63 milhões de dólares — uma advertência dos problemas financeiros do ator — muitos jornais descreveram o lugar como sendo uma vila. Conforme nossos pneus trilhavam o caminho de cascalho até as construções de pedra, é fácil perceber porquê.

Há uma modesta casa principal com janelas venezianas azuis desgastadas, quase totalmente coberta por folhagens verdes brilhantes. Há também uma piscina escondida, uma oficina, um terraço de rochas com acabamento em madeira e uma bagunça de quatro ou cinco quartos e banheiros. O telhado inclinado, quase plano, é de azulejos de cerâmica, enquanto que na parte inferior, uma porta pesada de madeira te leva para uma “cave à vin” (adega), agora convertida em uma aconchegante cripta — se você acha criptas aconchegantes. O local é decorado por gotas de vela e mantas de couro.

A partir daqui, nós viramos à direita caindo ao que parece ser o pátio principal da propriedade, ou a praça da vila. Um lugar onde a rua se alarga à um natural ponto de encontro. Um caminho de cascalhos com uma árvore pequena em seu centro.

À nossa frente, a uns 10 metros, é a igreja, silenciosa, com suas portas fechadas, enquanto à nossa esquerda está o que parecer ser uma típica cafeteria francês, um lugar originalmente planejado para ser uma garagem. O toldo de tecido marrom da cafeteria tem um nome escrito ao estilo art-nouveau de caligrafia. “Chez Marceline”, que se refere à Marceline Lenoir, a agente de longa data de Paradis.

Em uma mesa de madeira lustradado lado de fora, dois homens estão sentados bebendo água mineral francesa; Seus nomes são John Evans e Daniel Rolle, e eles estão nos esperando. O estilo de Evans e Rolle são padrão de uma loja de departamento com camisas azuis claras (por dentro da calça), jeans apertados, mas não tão skinny, um cinto de tecido na cintura e um Rolex vintage no pulso. É de bom gosto, e até refinado, em vez de qualquer coisa ostensiva e brilhante.

Evans e Rolle são os principais homens a respeito da logística de hoje. Eles trabalham para uma empresa com sede em Londres chamada Hawthorn, uma empresa de relações públicas que além de outras coisas, é especializada em lidar com crises de gestão para empresas e indivíduos de patrimônio elevado.

Uma das empresas parceiras da Hawthorn nos Estados Unidos tem consultado sobre a venda da The Weistein Company, mas vale mencionar que o próprio Evan desaconselhou tal medida, apesar da “taxa ridícula” oferecida. Empresas como Hawthorn não entram em contendas pequenas ou ligam para editores buscando correção nas páginas de entretenimento; eles são uma empresa que clientes excepcionalmente ricos chamam se não houver mais ninguém para ligar. Eles são os Harvey Keitels desse mundo, homens lobo, reparadores, especialistas em ajuste de imagem pública, sábios estrategistas corporativos.

Ben Elliot, sobrinho da Duquesa da Cornualha, é co-fundador e sócio da Hawthorn. Ele também fundou a Quintessentially, um serviço de concierg para a elite rica — pense em heli-ski no Hill Hill Step do Everest ou em uma suíte com sacada com vista para o Grande Prêmio de Mônaco. Foi Elliot quem fez contato inicial para perguntar se a GQ estaria interessada em conhecer e conversar com Depp.

Apesar de Depp ser alguém que há muito já mostrou seu desdém pela mídia — alguém que uma vez perseguiu paparazzis com um pedaço de madeira do lado de fora de um restaurante em Londres por fotografarem seus filhos — nós fomos informados que ele queria conversar.

Já faz cerca de duas semanas depois da edição da Rolling Stone bastante lida intitulada “O Problema com Johnny Depp”. É um artigo sobre o qual Depp falará mais a frente, como ele faz com a maioria dos assuntos, com um tipo de indiferença vingativa. Esse é um homem, que eu virei a descobrir, que alegremente irá cuspir suas tripas por toda a mesa, mas ainda assim, se mantendo irreverente quanto a causa e efeito. Essa frieza, suspeita-se, ser sua armadura. O ator se refere ao artigo da Rolling Stone como “uma farsa”. Na verdade, ele vai muito além. “Eu fui enganado. O cara [jornalista Stephen Rodrick] entrou com uma única absoluta intenção. E eu podia ver e eu pensei que talvez eu poderia ajudar ele a entender, sabe?”

“Eu confiei em Jann Wenner [co-fundador e editor da da Rolling Stone], que eu conheci por Hunter [S. Thompson, o falecido escritor e mentor de Depp]. Eu confiei no que a revista representa ou costumava representar. Eu queria saber se Jann poderia escrever, ver se alguma coisa poderia ser escrita… para colocar as coisas em perspectiva. Só isso. Colocar as coisas em perspectiva.”

Perspectiva pode ser uma coisa traiçoeira. Pode sair pela culatra. Pode ser manipulado. Perspectiva, sobretudo, é meramente subjetiva. Ainda assim, Depp estava certo em ser combativo. Qualquer um que não soubesse de nada teria lido aquele perfil da Rolling Stone — junto com um constante acúmulo de links e clickbaits sobre as últimas da vida o astro, seus problemas financeiros, seus hostil e selvagem divórcio com a atriz estadunidense Amber Heard, acusações de violência doméstica, que ele recorre junto com o vídeo em um caso de difamação no Reino Unido — e sairia com uma imagem sombria do homem de 55 anos.

O artigo declarou que Depp estava prestes a falir: tendo feito $650 milhões de dólares em filmes que fizeram bilheteria em cerca de $3,6 bilhões de dólares, ainda assim, “quase tudo se foi”. Até há algumas semanas, Depp estava processando seus parceiros de negócios, Joel Mandel e seu irmão, Robert (e a empresa deles The Management Group [TMG]) por negligência, violação de dever de confiança, fraude, falsificação e roubo.

O processo alegava que, como seus contribuintes, a TMG não pagou os impostos de Depp a tempo por todos os 16 anos de sua representação, custando a Depp mais de $8,3 milhões de dólares em multas. O processo de Depp também apontava conflitos de interesse da TMG em seu suposto investimento indevido do dinheiro do astro em seu suposto investimento indevido do dinheiro do astro em empresas com as quais eles tinham relação e a permissão para que os membros imediatos da família de Depp gastassem sua fortuna sem a devida autoridade ou conhecimento. A TMG recorreu contra Depp por quebra de contrato e fraude, dizendo que o ator era o único responsável por qualquer problema financeiro com o qual se encontrava. No último verão, o Wall Street Journal e outros jornais noticiariam que os ex-gerentes de Depp estavam sendo investigados pela Receita Federal dos Estados Unidos, do Departamento de Justiça e Comissão de Valores Mobiliários e Câmbio, por fraude bancária e lavagem de dinheiro.

No dia em que cheguei à vila francesa de Depp, o pleito chegou a um acordo e ao final desse mês, em Agosto, ele venceria a primeira etapa de um caso separado contra seu advogado de longa data, Jake Bloom, por mais de $30 milhões de dólares pagos à sua antiga representação de advogados Bloom Hergott pelos seus ex-gerentes de negócios, sem qualquer tipo de contrato. Esta última parece ser uma reivindicação de classe para Depp. “Hollywood foi sacudida” relatou uma manchete do setor.

Sentado com os funcionários da Hawthorn em Chez Marceline, esperando Depp sair do pitoresco covil não-denominacional, também estão saindo conversas contínuas de histórias surgindo sobre Heard e o divórcio azedo do casal. Heard pediu divórcio em maio de 2016, apenas 15 meses após se casarem em fevereiro de 2015. Registros judicias preenchidos por Heard citavam “diferenças irreconciliáveis”, com uma liminar concedida contra Depp, que Heard acusada de violência doméstica. Um vídeo muito divulgado como Depp “arremessando uma taça de vinho” em Heard, e os advogados da mulher de 32 anos afirmaram que Depp “violentamente atacou” ela. A própria Heard foi presa por violência doméstica contra uma ex-parceira em 2009. Ela negou as acusações e nenhuma ação foi trazida.

As alegações, então, vão do perturbador ao verdadeiramente bizarro. Embora o acordo de divórcio tenha sido finalizado em Agosto de 2016 — com Depp pagando $7 milhões de dólares e a ordem de restrição sendo retirada — Ainda esta manhã, à caminho do complexo, a história mais peculiar que surgiu do relacionamento volátil deles, foi a de que Heard supostamente teria defecado na cama do astro após uma briga particularmente desagradável em abril de 2016. Heard saiu com uma declaração na noite passada alegando que o incidente estava longe de ser um protesto sujo de sua parte, mas culpou as fezes à seu cão yorkie de 2kg, que sofre de problemas intestinais.

Enquanto ouço o barulho satânico da igreja de Depp na França, eu penso: Quem, ou o que, eu estou prestes a encontrar hoje, em sua casa, dentro de seu santuário? Um ator danificado pela fama, dinheiro e excessos? Uma relíquia de um velho sistema estelar de Hollywood que está quebrada e envelhecendo vergonhosamente? Alguém que simplesmente não se encaixa na admirável nova era, uma era em que escândalos e histórias não podem mais serem escondidos ou enterrados sob uma avalhanche de NDAs (Non-Disclosure Agreement — Acordo de não divulgação) forçados?

Ou Johnny Depp é simplesmente um homem que foi injustiçado e abriga um desejo genuíno de se preparar para proteger seu nome e sua carreira, para que ele possa começar a se afastar do que um dia foi um período da sua vida que ele logo esqueceria?

Ele busca vingança contra uma indústria — e certas pessoas — que ele diz terem se aproveitado da sua ingenuidade?

“Tá na hora. Ele tá pronto.”

Enquanto sou levado em direção à igreja onde a barreira de som demoníaco finalmente silenciou, eu percebi, que talvez pela primeira vez, eu não tinha ideia de quem ou o que iria aparecer, piscando na forte luz clara. É como entrar no olho de todos os tornados em torno desse homem e de sua vida surpreendente. Quando a porta da igreja abre, eu ouço uma tosse e pergunto-me: onde termina o mito de Johnny Depp e quem Johnny Depp realmente é, começa?

“Você é um John ou um Jonathan?”

“Eu sou Jonathan”, eu digo. “Você deve ser Johnny.”

“Johnny, John … eu sou John. É Jon-a-than ou Jon-a-thon? Eu sou John Christopher Depp II. Eu tenho um número depois do meu nome que me faz parecer… Eu não sei, mais grandioso do que eu deveria ser.” Imediatamente há aquele sorriso, que oscila entre charme e travessura, heroico e vilanesco. Seus olhos permanecerão por de trás de um enorme óculos aviador espelhado pelas próximas quatro horas. “Vamos nos sentar ao sol, conversar, sofrer insolação, vomitar e morrer?” Uma pausa. E então joga a cabeça pra trás com uma risada. “Talvez depois. Venha, Jonathan, tem um lugar muito legal que eu quero mostrar pra você…”

Depp emergiu de seu sono parecendo, se não saudável, certamente mais saudável do que eu esperava. Os amigos com quem conversei sobre minha tarefa demonstraram preocupação sobre o estado mental e físico de Depp — a maioria com pouco ou nenhum insight real, deve ser dito — muitos referindo-se a uma imagem tirada do astro recentemente enquanto estava em turnê pela Europa com sua banda Hollywood Vampires.
A fotografia, tirada por um fã, mostrava Depp magro, pálido e precisando dormir um pouco — ou ao menos um suco verde grande uma vez ou outra pelo quarteirão em um SoulCycle. Não apenas isso, mas talvez ainda mais perturbador, seu tradicional chapéu fedora desgastado fora substituído por um boné de beisebol, um boné de beisebol com a palavra “FUGLY” estampada. Johnny Depp? Em um boné de beisebol?
Hoje, no entanto, a pele de Depp está corado e livre de inchaço. Deve-se dizer, entretanto, que suas roupas estão menos intactas. Ele está usando um boné de beisebol e sua camisa, particularmente, parece ter tido seus braços arrancados fora, como se tivesse sido propriedade de aulas de administração de controle de raiva iradas de Bruce Banner. Na verdade, a camisa não é nada que eu já tenha visto antes:uma camisa social, com uma gola mandarim, no entanto, sem mangas. Sobre sua camisa há um colete azul de risca de giz e em volta do pescoço há várias correntes, bugigangas e talismãs.

Na ponta de um dos colares há um“punho gonzo” de prata. O símbolo caracterizado pelos dois polegares e quatro dedos segurando um peiote, originalmente usado para a campanha de Hunter S. Thompson para xerife do Condado de Pitkin, Colorado, em 1970. Através da vida prolífica e estilo de escrita de Thompson, o punho se tornou o símbolo do jornalismo gonzo como um todo. Para Depp é tanto uma lembrança do falecido amigo, alguém com quem ele morou em um porão em Owl Farm, acampamento base de do Hunter em Aspen, Colorado, e um lembrete de como se deve trabalhar e viver, com um forte senso individual e desequilibrado senso sistemas corporativos ou fiscais. Como Depp diz frequentemente: “Bata no sistema de dentro pra fora.”

As calças jeans são largas e parecem uma colcha de retalhos de azuis e buracos que foram costurados e remendados inúmeras vezes. A história de Depp com calças desgastadas sempre foi, bem, cheia de remendos, para dizer o mínimo. Sempre parecendo que acabou de transar pós-termino com um lobisomem. Uma vez ele estava levando um filho para uma festa de aniversário em Los Angeles quando percebeu que seu jeans tinha um buraco do tamanho de uma calota na parte de trás. Ao invés de se trocar, o que teria sido a coisa mais sensata, ele pegou um rolo de silver tape e fez seu próprio reparo.

O cinto de Depp é um caso a parte. É de couro marrom gasto mas está presa de lado e não à frente. É incomum, observei, enquanto caminhamos em direção à uma enorme mesa de pedra onde nos sentaremos e conversaremos à sombra durante a tarde. “Isso? Bom, não é Texas Belt Buckle. Você sabe o que é Texas Belt Buckle?” Eu tenho que confessar que não sei. “Bom, um Texas Belt Buckle é quando você coloca seu escroto por cima do jeans sem abrir ele. Todo o caminho pra cima e acima. Oh, o horror disso tudo… Você tem que dar a volta com seu pau e enfiá-lo ali… Você tem que torcer seu pau como uma cesta de frutas e então você tá fodido. Você puxa seus testículos para cima e deixa eles repousados ali. Isso é um Texas Belt Buckle. Então, é claro, tem o Dirty Sanchez, que é algo totalmente diferente. ‘Dirty Sanchez’, que eu consegui colocar em Piratas do Caribe…”

Para aqueles às sombras do que Dirty Sanchez possa ser, tudo o que você precisa saber é que é um termo oriundo do spit’n’grind da indústria pornográfica de Los Angeles, algo que poderia ocorrer quando certos membros protuberantes estão em certos orifícios e então em outros buracos. Eu vou deixar sua imaginação sozinha, mas vamos dizer que é uma grosseria imensurável e um termo para um ato sexual obsceno que não poderia ser menos adequado para a inclusão em um filme da Disney de $300 milhões de dólares sobre um pirata, baseado em um brinquedo de parque temático de família na Flórida.

“Sim, eu [disse] em Piratas e eles nunca notaram quando saiu para os cinemas” Depp ri enquanto sentamos um de frente para o outro. “Eles tiraram quando saiu em DVD. Eu fiz isso porque eu queria saber quem seria a pessoa da Disney a notar…” Quanto ao motivo pelo qual Depp queria saber quem seria a pessoa a levantar essa bandeira vermelha é incerto, apesar do fato dele ainda se orgulhar de ter colocado a palavra obscena naquele primeiro blockbuster — embora com um resmungado e quase incoerente verbete — olhos e ouvidos de empregadores passados não são insignificantes.

Serve para ilustrar o que tem sido, e o que ainda é, no núcleo moral de Depp, um conflito que ferve e espuma sob a superfície do ator: a rixa de ser fiel às suas sensibilidades artísticas ao mesmo tempo em que é um colaborador solícito e o rosto de uma franquia bilionária. É o velho problema enfrentado por muitos criativos de sucesso — o da arte contra o comercial.

Jack Sparrow foi para Johnny Depp o que Iron Man acabaria se tornando para Robert Downey Jr.: Um sucesso global que iria mudar o ator — ou ao menos a sua imagem — De um jovem desajustado e mal-humorado que já demonstrava desgosto por ser um pôster adolescente(via 21 Jump Street — Anjos da Lei), usava jaquetas de couro vintage enormes e fumava Marlboro vermelho enquanto beijava modelos, como Kate Moss à uma mega estrela global com sua própria linha de brinquedos, incluindo um pirata de boneco de 25cm com peças removíveis e botas de couro.

Foi o momento em que o homem que interpretou Ed Wood se transformou em Mickey Mouse, embora um Mickey Mouse com afeto por uma garrafa de Château Calon Ségur (2014). “Eu fiquei assustado com isso.” ele admite quando percebeu onde a atuação iria levá-lo, ao invés da música, que sempre foi sua principal saída criativa. “Quero dizer, no começo eu realmente não dava a mínima para atuar. Mas eu comecei a gostar disso. Eu gostava de criar esses personagens, estar nas trincheiras e discutir com colaboradores, atores, diretores… O problema de trabalhar com esses estúdios grandes é que eles podem ficar desconfortáveis com certas decisões criativas que você faz. Isso aconteceu em Piratas. A minha opinião é que se o estúdio não estiver preocupado, eu não estou fazendo meu trabalho direito.”

A Disney tentou alterar sua performance em Piratas? “A Disney me odiava. [Eles estavam] pensando em todas as maneiras que eles poderiam se livrar de mim, para me demitir. ‘Oh, nós vamos ter que legendar ele.’ ‘Nós não entendemos Capitão Jack Sparrow.’ ‘O que tem de errado com ele?’ ‘O que tem de errado com seus braços?’ ‘Ele tá bêbado?’ ‘Ele tá fodido da cabeça?’ ‘Ele é gay?’”

Eu pergunto diretamente à ele: a Disney perguntou se Jack Sparrow estava sendo interpretado como abertamente homossexual em Piratas? “Eles me perguntaram: ‘Ele é gay?’ E eu respondi a pergunta pelo telefone. Era uma mulher chamada Nina Jacobson, da Disney na época [A própria Jacobson é gay, deve-se dizer, e há muito faz campanha por uma maior diversidade dentro do clube só de homens nas antigas salas de reuniões de Holywood] e ela me fez algumas perguntas e depois disse, ‘O que é isso, Johnny? Ele é gay?’ A minha tendência, é claro, é ser irreverente, então eu disse: ‘Nina, você não sabia que todos os meus personagens são gays?’ Esse foi uma forma abrupta de terminar a conversa. E eu apenas continuei dando forma ao Jack do jeito que eu acreditava ser o melhor.”

Será que Depp estava bravo com a Disney por sua falta de visão? Sua falta de confiança? “Não. Eu disse à eles, ‘Olha, se vocês não gostam do que eu estou fazendo, me demitam. Vocês me contrataram para fazer um trabalho e interpretar o personagem e é isso que eu quero fazer.’ Assim, eles não olharam nenhum dos trabalhos que eu havia feito anteriormente? Você pode querer dar uma olhada nisso antes de contratar um filho da p*ta, sabe?”

Ele se sentiu vingado uma vez que estava claro que a abordagem para Jack iria funcionar, quando o público se apaixonou por ele? “Eu sabia que eu estava certo. Até mesmo na primeira vez que eles vieram até à mim dizendo, ‘Não, não, o que é isso?’ Parecia certo. Mesmo quando os outros atores estavam me olhando como se eu fosse uma ameaça absoluta, eu me mantive. Quero dizer, os atores mais velhos estavam provavelmente pensando, ‘Jesus Cristo, ele está naufragado.’ Porque eu iria rasgar o roteiro no set. Eu seria trapaceiro. Eu iria voar um pouquinho para ver onde as coisa iam. E nem todo mundo aprecia essa forma de trabalhar. Oliver Stone não gostou quando eu mudei todas as falas que ele escreveu pra mim em Platoon e sem dúvida alguma provavelmente por causa disso que a maioria das minhas coisas acabaram no chão da ilha de edição.

Depp e eu estamos sentados sob o que só pode ser descrito como uma tenda ou uma marquise de parreiras verdes. Nós estamos a cerca de 150 metros da casa principal. Dentro da tenda há uma imensa e monolítica mesa de pedra e bancos que lembram algo trazido da era paleolítica, marcados e ranhurados por anos de desgaste e deterioração. Depp comprou quando adquiriu a casa. “Eu fiz um filme com Roman Polanski [The Ninth Gate — O Último Portal] em Paris com a Vanessa. Nós deveríamos ficar dois meses e acabamos ficando dez anos.” Enquanto conversamos, Depp mantém seu boné e seus óculos. Ocasionalmente ele parece um pouco sonolento, sufocando um bocejo, embora depois de um tempo ele abandona o sono e é envolvente, coerente e certeiro. Ele se move raramente, talvez apenas dobrando as pernas para um lado ou sentando de pernas cruzadas como uma espécie de skatista/ veterano de guerra/ iogue. Caso contrário, ele está totalmente parado. Ele toma cuidado com suas palavras, falando em um ritmo constante, sem medo de ser paciente e esperar até que a palavra certa chegue de sua consciência e escape para o éter.

Um homem, talvez um caseiro, nos traz refrescos em uma daquelas cestas de lavanderia de plástico azul-claro: frutas, chá verde engarrafado, Coca-Cola e água. Nada de álcool. Mais tarde, eu pergunto a Depp se ele acha que tem um problema com álcool: “Eu gosto de uma bebida? Sim. Eu preciso de uma bebida? Não.” O único vício visível é seu tabaco de enrolar que ele fuma em papéis de alcaçuz; ele vai enrolar um a cada 20min mais ou menos e frequentemente não irá acender imediatamente. Ele o deixa pendurado na boca, o papel grudado no lábio inferior enquanto ele fala e responde as perguntas. Ele tem todas as advertências do tabaco e todas as imagens de pulmões pretos rabiscados por um assistente. Seus dedos estão cheio de anéis e seus braços cheios de tatuagem.

As tatuagens têm sido muito discutidas: o “Wino Forever” — bebum para sempre — no bíceps superior direito talvez seja o mais infame, uma alteração o que originalmente era “Winona Forever — Winona para sempre — que Depp fez quando estava namorando Winona Ryder, os dois tendo trabalhado juntos em Edward Mãos de Tesoura, de Tim Burton, em 1990. Uma tatuagem mais recente dizia “Slim” em uma fonte gótica, uma letra em cada uma das falagens proximais (os ossos dos dedos mais próximos da palma da mão). Slim era o nome que Depp costumava chamar sua ex-esposa, Amber Heard. Após o divórcio, ele alterou para “scum” — escória e mais recentemente, “scam” — fraude.

Há algo sobre o tormento dos últimos anos que, intencionalmente ou não, sacode superficialmente esses assuntos espinhosos — sua separação, sua reputação, seus problemas financeiros — à tona. Muito simplesmente, eles estão no ar. Eu posso sentir isso. Depp pode sentir isso. E mesmo sem ser cutucado, os tópicos caem sobre a mesa e exigem ser escolhidos.

Depp, pode-se dizer, parece que ele sofreu, soando às vezes com um animal ferido que está curado e agora está pronto para morder de volta. Ele também está — embora possa negar, zangado —zangado com muitas — e ele é vingativo e absolutamente categórico de sua posição e postura.

“Os últimos três ou quatro anos pareceram uma situação perversa que foi infligida a mim. Dói.” Como o ator levou as afirmações sobre seus gerentes de longo prazo estriparem sua confiança e seu relacionamento dessa maneira?

“É grosseiro falar de dinheiro, mas quando eu vi que o Piratas 5 tinha acabado de terminar, pouco antes do gerentes de negócios começar com, ‘Ah, você tem que vender sua casa na França! Meu Deus! A merdè tá batendo no ventilador!’ Agora, meu pagamento inicial — Eu fico até com vergonha de dizer — por Piratas 5 apenas foi de £35 milhões de libras. E então fui pra minha lua de mel depois do filme e enquanto eu estava em lua de mel, recebi a ligação do cara e eu fiquei tipo, ‘O que? Eu não entendi? Como isso é possível?’”

A TMG alegou que eles fizeram o que podiam para lidar com as finanças de Depp de forma responsável e repetidamente o advertiram de que ele estava gastando demais, mas ele tem uma perspectiva diferente. “O meu ver é de que eu precisava não me envolver na noção de dinheiro, quanto eu estava fazendo, quanto tinha lá. Eu só sabia que eu estava ganhando dinheiro suficiente em dia ao final de tudo e tudo deveria ficar bem. E quando eu descobri, foi quando a guerra começou. De todos os lados. O juiz os chamou em todas as pequenas alegações pessoais e disse vocês estão tentando decapitar este homem em um fórum público. Não se faz isso.”

Depp tem uma teoria, entretanto, sobre uma conspiração mais ampla sendo alimentada pelos problemas em torno de suas finanças e deterioração do casamento, uma teoria que aponta para a própria indústria de Hollywood, “esse maldito circo”, como o ator chama. “Mas isso parou todos os magnatas em Hollywood interessados em me calar? Muito dinheiro estava sendo gasto. Pessoas me processando em qualquer oportunidade. Digo, é tão óbvio. Olha, eu sei que eu nunca iria ser a Cinderella — Eu sei disso e aceito isso. Mas foi como se dentro de um período muito curto de tempo que de repente essa versão — por falta de palavra melhor — de Cinderella fosse imediatamente transformada num “Eu podia sentir as pessoas me olhando diferente, por causa das acusações. E então as pessoas começaram a colocar coisas em revistas como: ‘Ele é louco. Ele precisa fazer um teste de sanidade..’ Sabe, coisas ridículas. Mas a única coisa que eu pude fazer era saber o que eu ainda sei. Ao final de tudo, a verdade vai sair nisso tudo e eu estarei de pé do lado certo da correnteza rugindo. Eu espero que outras pessoas estejam também. Eu sei a verdade e se eu tiver que me afastar de tudo isso hoje, o trabalho, carreira, tudo isso, e adeus, então tudo bem.

“Eu não tenho nada a provar para ninguém porque eu nunca estive em competição com ninguém. Eu não engulo essa merdè. Eu não estou interessado em receber figuras de ação pintadas com spray. Ou o que quer que isso seja, o que quer que eu tenha deixado para trás, meu legado para meus filhos ou para as pessoas, eu não assisti 98% dessa merdè. Pode ser completamente insano. Pode ser uma porcaria. Pode ser interessante. Eu não sei que porra é. Mas o que eu sei é que eu fiz algo e tentei fazer algo diferente por um período de anos. Funcionou? Quem diabos sabe? Mas eu fiz isso e estou bem se precisar parar.

“Eu amo o processo de criar um personagem. Eu amo a segurança de ser esse personagem. Quero dizer, havia muita segurança em ser tão aberto quanto você poderia ao se entregar para Edward Mãos de Tesoura e tentar ver as coisas, mundanas, coisas normais, como belas e novas, sabe? Capitão Jack foi um animal diferente. Ed Wood um animal diferente. Chapeleiro Maluco [de Alice no País das Maravilhas], Willy Wonka [A Fantástica Fábrica de Chocolate]…

“Ainda assim, há uma linha comum passando por todos esses personagens. Há um filamento que os conecta. Mesmo sendo todos muito diferentes, eles são todos os mesmos, porque tudo tem que sair de algum tipo de verdade, sabe? E a verdade é que eles são todos desajustados. Eles são todos desajustados e todos eles são mal interpretados. E julgados de uma maneira condescendente, de um jeito ruim.”

A mensagem é alta e clara sobre o que Depp acredita ter ido abaixo com seus gerentes e parceiros de negócios. Eu me pergunto: ele se preocupa com sua reputação, seu legado, não menos importante em relação às mulheres? Ele está preocupado com o fato de que muito do que foi divulgado na imprensa, tanto escândalo, tenha causado uma erosão irreversível de seu bom nome? Ou ele simplesmente não se preocupa porque, como ele mesmo diz, nunca quis ser colocado em um pedestal ou alegou alguma vez ser exemplo ou uma figura da Cinderela?

“Sabe, eu vou te falar…” A pausa a seguir é longa. Depp e eu sentamos em silêncio. A questão paira sobre nós. Então, ele parece simplesmente decidir falar.

“”Não se trata de ser um exemplo. Não, não é nada disso. O vídeo que vazou…” Ele para e ri e repete suas palavras, “O vídeo que vazou ou o vídeo que alguém fez, que milagrosamente apareceu no YouTube, gravado do celular de alguém. Isso não foi em Downtown [LA, onde ele viveu com Amber Heard]. Ela [Heard] queria fazer como se fosse recente. Era um vídeo mais antigo e [o que aconteceu nele] tinha a ver com a descoberta de que eu havia perdido centenas e centenas de milhões de dólares.”

O vídeo em questão, obscuro e clandestino, mostra Depp enchendo uma taça grande com vinho tinto e, em seguida, pegando o telefone de Heard depois de ver que ela está gravando. O vídeo foi “vazado” ou lançado pelo canal de fofocas TMZ nos Estados Unidos, embora, em comparação com as outras alegações de Heard contra o Depp, o conteúdo do vídeo pareça não excepcional ou certamente o menos perturbador.

Embora ambos tenham resolvido fora dos tribunais, o que Heard alega ter acontecido em Abril de 2016 ainda repercute durante meu encontro com Depp. Heard alegou que no sábado, 21 de maio, Depp atacou sua esposa e arremessou um iPhone em seu rosto. Heard ligou para a polícia, que não encontrou evidencia de crime algum. Contudo, Heard afirma ter tirado uma selfie mais tarde naquela dia, mostrando hematomas ao redor do olho direito e bochecha direita. Na quarta-feira seguinte, ela pediu o divórcio. Depp está atualmente processando o The Sun por alegar em uma manchete que ele é um agressor de esposa.

Eu sinto que tenho que abordar o assunto com Depp. O ator se considera um homem violento? Um homem agressivo? Ele pode perder a paciência ou é propenso a, caso sob uso de substâncias? “O que me machuca é estar sendo apresentado como algo que você está tão distante quanto poderia estar, entende?

“Houve aquela vez em que os paparazzi estavam tentando tirar uma foto de Vanessa e ela estava grávida de Lily-Rose e eu não iria deixar eles fazerem um circo disso. Então eu fiz o que eu tinha que fazer. Coloquei ela no carro, eles não conseguiram a foto, e eu disse, ‘Tira uma foto porque aí eu vou cozinhar a porra da sua cabeça. Vocês estão com suas câmeras. Primeiro um clique. Vamos.’ E essa é a verdade. Eu teria feito. Eu já disse antes, se um paparazzi tira uma foto, eles estão bem longe e eles tiram uma foto de mim e do meu filho, o que quer que seja, é isso que eles fazem. Mas se eu te pegar, eu vou comer seu nariz. Eu vou comer o seu nariz. Mastigá-lo e engoli-lo na sua frente e então você vai pensar nisso da próxima vez. Mas agora…”

Depp fica quieto novamente. Parece que ele precisa fazer um balanço de vez em quando, para recarregar, para voltar à uma específica faixa ou humor toda vez que a conversa passa a ser sobre falar sobre seu relacionamento volátil com Heard e os resultados do seu término. “Para machucar alguém que você ama? Como um tipo de valentão? Não, não. Isso não poderia nem soar como a mim. Então, inicialmente, eu apenas mantive minha boca fechada, sabe? Eu sabia que isso ficaria em cima de mim e ficaria mais estranho. Vá indo, sabe? Enlouqueça. Eu não vou entrar em uma competição de mijo com alguém sobre isso. Cuspa o que você tem para cuspir e meus advogados cuidarão do resto. Eu nunca saí e falei sobre essa merdè.

“Mas é claro que eu me importo com o que minha família e meus filhos pensam. Digo, você percebe logo de cara que, essencialmente, o que está sendo feito é o começo do que eles esperam s ser seu funeral.” Depp ainda está falando em um ritmo medido, em seus tons graves e frios, mas suas palavras estão um pouco cortadas ao final. Suas vogais são um pouco mais firmes.

“E pior que isso, tirar os ganhos futuros dos meus filhos? Eu faço essa merdè para os meus filhos, cara. Como alguém, qualquer um, vem com algo assim contra alguém, quando não há nenhuma verdade nisso? Tenho certeza que não é fácil para meu filho de 14 anos ir à escolha, sabe o que eu quero dizer? Com as pessoas falando, ‘Ei, olha essa revista, cara. O seu pai bate em garotas ou algo assim?’ Por que ele tem que passar por isso? Por que minha filha teve que passar por isso?” Eu digo à Depp que eu posso imaginar como isso deixaria ele bravo. “Ela não…” Depp muitas vezes está ciente de que algumas das complexidades do relacionamento dele e de Heard precisam ser colocadas na terceira pessoa. É por isso que às vezes ele começa usando um pronome subjetivo mas muda para algo mais objetivo, trocando “ela” por “essa pessoa”.

“Por que essa pessoa não falou com a polícia?” Continua Depp. “Quero dizer, eles falaram com a polícia, mas a polícia não viu nada e eles ofereceram à ela um técnico de emergência médica. Ela disse não. A polícia não vê nada nela. A polícia não vê nada quebrado no local, nem marcas, e então eles oferecem à ela um EMT ( emergency medical technician – técnico de emergência médica) e ela diz não. E eu não sei se foi no dia seguinte ou alguns dias depois, mas aí tinha esse hematoma. Tinha uma marca vermelha e depois havia uma hematoma marrom.”

Um dia após o suposto arremesso de telefone, Heard foi vista em uma festa, mais especificamente na festa de 44 anos de Amanda de Cadenet. De Cadenet postou uma foto de si mesma com Heard sorrindo brilhantemente à sua direita e a modelo Amber Valleta à sua esquerda. Heard é marcada na foto; seu cabelo está penteado por trás do seu olho e bochecha esquerda. Em algum momento, entretanto, a foto foi excluída. Depp é enfático sobre sua versão dos eventos. “Ela estava em uma festa no dia seguinte. O olho dela não estava fechado. Seu cabelo estava por detrás dos olhos, mas você você podia ver que seus olho não estava fechado. A sete metros de distância dela, como eu poderia ferir ela? Que a propósito é a última coisa que eu faria. Eu posso parecer estúpido, mas eu não sou estúpido.”

Sugerir que uma mulher, um homem ou qualquer um possa ter inventado uma alegação tão séria como essa é uma coisa extremamente perigosa e prejudicial pra se fazer. Se nós, como uma comunidade global, estamos lutando por igualdade e aceitação para correr livremente por todas as áreas de nossas vidas, por todas as raças, culturas e gêneros, então nós precisamos acreditar em pessoas que levantam sua voz e afirmam terem sido submetidos a abuso físico ou verbal. Deixe-me ser claro: Isso não é uma reportagem investigativa. É apenas um snapshot, uma chance de sentar e conversar com uma pessoa de imenso interesse e talento, que trouxe alegria para milhões de amantes do cinema em todo o mundo, desde que se mudou de Kentucky para Los Angeles e um amigo, Nicolas Cage, disse à ele que deveria ir ver seu agente.

Esse não é um artigo que afirma saber com alguma autoridade o que aconteceu entre Johnny Depp e Amber Heard em maio de 2016 ou em qualquer outro momento entre ambos em particular. Tudo o que eu queria era vir até Johnny Depp e pedir a ele que desse o seu lado da história, que até agora não foi ouvida corretamente. Antes de nos conhecermos, foi acordado com os assessores da Hawthorn que ambas as partes entrariam nessa com um simples objetivo: registrar o que acontece com sinceridade. Do meu ponto de vista, isso é o qeu eu vi e essa é a conversa que tivemos.

“Nós provavelmente não deveríamos estar conversando sobre isso,” Depp continua, “mas eu me preocupo. Eu me preocupo com o que a ideia que as pessoas compraram e eu me preocupo com ela. Não está certo. Eu nunca vou parar de lutar. Eu nunca vou parar. Eles teriam que atirar em mim. Um episódio como esse leva tempo para superar. É um luto por alguém que você pensou que era…”

Novamente, uma pausa silenciosa. Tudo o que eu posso ouvir é o sangue correndo sobre o meu crânio, acelerado pela adrenalina e pelas nuvens de nicotina estonteantes.

O amor da sua vida?

“Bom, alguma coisa. Eu casei com ela, de qualquer forma.”

Ele está solteiro agora?

“Yeah,” ele diz, rindo e soando até aliviado.

Isso é bom?

“Yeah.”

Ele pensa em querer encontrar o amor novamente?

“Não.”

Eu preciso me aliviar. Depp me diz que eu posso usar o seu banheiro que irei encontrar de volta à igreja. Ele me dá uma série de instruções e direções, ainda com a eletricidade da conversa que nós acabamos de ter ainda pingando sobre minha cabeça quente, eu concordo e sorrio, mas quando chego à igreja, eu percebo que eu não estava realmente prestando atenção. Eu entro pela porta principal e é quando percebo que estou de pé no meio do quarto de Johnny Depp. Sozinho. Com a bexiga cheia.
Na verdade, eu ainda não estou no quarto dele. Eu estou em uma pequena kitchnette. Tem uma pia e uma caixa de lenços em uma mesa pequena e, além dela, uma porta que leva ao quarto. Eu consigo saber que é o quarto porque eu posso ver uma enorme cama com dossel contra a parede oposta a mim. Eu me arrisco mais, pensando que deve haver uma suíte em algum lugar e agora eu estou realmente no meio do quarto do Johnny Depp, dentro de sua igreja, que ele havia construído em seu complexo comprado com sua ex-parceira há 20 anos. Faz a cabeça rodar estar sozinho no espaço privado de alguém. É tão íntimo, como escalar dentro da cabeça ou diário de alguém e vasculhar por seus pensamentos sem dizer que você está fazendo isso.

Eu faço uma varredura rápida do cômodo. Há uma porção de fotos de família, um violão em um suporte e roupas espalhadas como de um adolescente que acaba de chegar da escola. Ao fundo, em direção à porta principal da igreja, que está bloqueada, dois sofás de frente um para o outro. No sofá mais perto de mim, ao lado direito, tem o objeto mais intrigante de todos: uma máquina de escrever vintage preta com teclas redondas e prateadas. À esquerda da máquina há uma pilha de anotações e páginas datilografadas. Eu tinha ouvido um rumor de que Depp estava escrevendo um livro de memórias, de sua vida, e vinha fazendo isso nos últimos anos. É um livro sobre como ele sofreu abuso nas mãos de sua falecida – viciada e terrivelmente violenta – mãe; sobre como ele, quando ainda criança e com raiva, pegava um bastão de beisebol da garagem e passava uma hora batendo contra uma palmeira no quinta deles; um livro sobre sua carreira e filmes nunca feitos; sobre suas relações, suas amizades; sobre quando Allen Ginsberg ligou para o ator quando ele estava morrendo; sobre Bob Dylan, seu amigo; sobre Edward Mãos de Tesoura; sobre a indústria, o circo; sobre a corrupção, o excesso e a sórdida e bela verdade disso tudo.

Tem uma página na máquina de escrever. Há um punhado de frases batidas, a tinta preta espalhada e borrada no papel marfim granulado. O que está escrito é privado. Também é eloquente. Lê-se como alguém que está tentando escrevendo vividamente, alguém que está desesperado para colocar pra fora, então ele pode finalmente segurá-lo e gritar: “Olhe! Isso é o que aconteceu!” Isso parece ser bisbilhotar. Eu faço uma saída rápida e volto para o banheiro na cafeteria. Eventualmente eu volto para Depp e os sinais de fumaça do seu cigarro mostram que ele ainda está onde eu o deixei.

“Na estrada com a banda é impossível levar tintas a óleo,” Depp explica. “os solventes deixam a porra do lugar todo fedendo, sabe? Então eu estou fazendo aquarelas e desenhos estranhos. Eu também tenho escrito bastante. Eu meio que comecei um livro, alguns meses antes de romper com Amber.”

Ficção? Memórias? Um roteiro?

“Eu escrevi cerca de 300 paginas. Eu tenho cerca de 300 a mais pra fazer. Estou no meio do caminho. São mais lembranças. E um pouco da beleza e do conhecimento que eu consegui extrair dessas pessoas mágicas que eu conheço, de Brando à Hunter, Patti Smith à Dylan à Ginsberg. Eu tive tanta sorte de ter conhecido todas essas pessoas. Eu não tenho cartões e nem faço anotações. Nenhuma estrutura está bloqueada. Eu tenho lembretes. Eu farei uma lista de lembretes.”

De eventos que ele quer lembrar?

“Sim, mas não está escrito como nenhum tipo de forma linear. Deve ser mais algo como o relato não planejado de uma história ao redor da fogueira.”

Eu pergunto à Depp se ele acha difícil escrever sobre alguma das memórias mais dolorosas.

“Claro. Minha infância foi sombria. Minha mãe não tinha filtro. Não tinha filtro algum. Ela iria dizer o que ela queria e o que ela sentia naquele instante. Não importa o quão errado poderia ser ou horrível era para o momento, ela não tinha filtro. Saía: bleurgh! Ela estava fora de si, obviamente, e não sabia o que diabos estava fazendo. Ela teve quatro filhos e odiava o mundo. Havia abuso verbal pra caramba? Sim, cara. Havia abuso físico pra caramba? Sim. E intermináveis, ao ponto que dor, dor física, era simplesmente um dado. Mas nos últimos quatro ou cinco anos em que estive envolvido, digamos… Foi um período bastante sombrio também. Quer dizer, você pode escrever sobre essas coisas e o que é interessante é que você escreve sobre essas coisas e alguns anos depois você volta e relê o que fez até agora. E então você percebe que se sente da mesma maneira que sentiu antes, mas você está tão distante disso. Coloca tudo em perspectiva. Porque em um certo ponto você será capaz de dizer: ‘O que mais alguém pode fazer agora? O que mais alguém pode fazer para me machucar?’”

O ritmo mudou. Ele ainda está calmo, ainda está caloroso, mas as emoções estão bem aqui na mesa conosco, bem na nossa cara. Talvez seja apenas o carisma natural de Depp, mas a intensidade da conversa é como estar levantando pesos. Não porque é difícil falar sobre ou não é natural, mas simplesmente por causa da frieza, da densidade emocional dos assuntos. Nós nos sentamos em silêncio. Depp não se move, nem um músculo se mexe. É como se ele olhasse nos olhos da Medusa para ver por si mesmo a realidade selvagem da vida.

O cigarro sem acender fica pendurado, como um charuto a ser mastigado e ensopado de cuspe. “O que foi que Dylan Thomas disse, ‘Para começar do começo,’ certo? E Ernest Hemingway, ‘Tudo o que você deve fazer é escrever uma frase verdadeira’ — uma das coisas mais difíceis para se fazer no mundo todo. E [Allen Ginsberg] ‘Primeira ideia, melhor ideia.’”

Depp teve suas lições de escrita de homens brilhantes, ainda que muitas vezes difíceis. Ele os amarrou como uma bandeira: para começar do começo. Tudo o que você deve fazer é escrever uma frase verdadeira: primeira ideia, melhor ideia… Muito parecido com Ginsberg, Depp tem essa capacidade de performar e se desenrolar de todos os seus nós. Uma viagem para as memórias de Depp suspeitaria ser como tentar dirigir um carro por uma estrada numa montanha sinuosa com seus freios cortados. Eletrizante, mas perigoso.

“E Hunter… Hunter! Ele estava no centro de cada história. Todas essas histórias eram verdadeiras. Eu tenho todas as fitas e guardanapos. Hunter queria que eu comprasses seus arquivos, mas eu sou seu guardião. Eles pertencem ao neto de Hunter, Will. Eu acho que nós vamos levá-lo para a estrada para mostras as pessoas, para mostrar a realidade, a loucura e a maldita beleza disso tudo.”

Pela primeira vez, Depp tira seus óculos. Ele esfrega seus olhos, que não estão vermelhos de ressaca ou com lápis, mas estão limpos e brilhando. “Eu quero a verdade. Essa é minha maior obsessão na vida. Só a porra da verdade.”

No entanto, para viver nos impulsos e colocar todos os fatos brutos como eles realmente saem, bem, esse é um tipo poderoso de narrativa. Como o próprio Hunter alertou sobre esse tipo específico de reportagem: “A verdade absoluta é uma mercadoria muito rara e perigosa.”

A verdade não tem tempo para perspectiva. Ou melhor, a verdade não é sobre perspectiva como um ponto de vista. Mas sim para ver toda a verdade? A história toda? Agora, esse tipo de perspectiva permitirá você ver a coisa toda: a altura, a profundidade e posição de todos os fatos em relação uns aos outros. Algo que é absoluto.

Não há dúvida de que Depp está buscando a verdade. Essa é a sua missão. Um dia, talvez, ele encontre as palavras certas em uma conversa ou em um livro, e quando ele fizer isso, elas serão simples.

www.gq-magazine.co.uk

3 thoughts on “Entrevista de Johnny Depp à GQ Magazine British

  1. Liu says:

    O que dizer? Amo e admiro muito esse guerreiro!
    Obrigada, DL!

  2. Salete says:

    Ele continua ferido. E a dor dele é a nossa dor.

  3. THAI L says:

    A verdade está com ele.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

«
»