Adoro Cinema (2006)

Johnny Depp – Estranho, Bizarro, Genial

Segundo o escritor colombiano Gabriel García Marquéz, autor do best-seller Cem Anos de Solidão e ganhador do prêmio Nobel de literatura, grandes escritores são conhecidos não pelo que escrevem, mas pelo que se recusam a escrever. Essa lógica cairia como uma luva à carreira de Johnny Depp. O cara é famoso por dizer não , coleciona negativas como quem junta figurinhas da copa do mundo. Recusou o papel que consagrou Keanu Reeves em Velocidade Máxima, o de Brad Pitt no épico Lendas da Paixão, o de Patrick Swayze em Caçadores de Emoção, o de Tom Cruise em Entrevista com o Vampiro e, finalmente, o de Leonardo Di Caprio em Titanic. Ao dizer não a essas superproduções Depp provavelmente deu uma banana à chance de ser o astro mais popular das últimas décadas. Em compensação o cinema ganhou um ator único, um intérprete que faz papéis que ninguém mais poderia fazer.

Curiosamente o cinema nunca esteve nos planos de John Cristopher Depp II. Seu negócio era outro, suas paixões eram guitarras e rock’n’roll. Foi pensando em ser um astro de rock que Johnny saiu ainda adolescente do interior do Kentucky (leia-se onde Judas perdeu as botas ) para Los Angeles, foi lá que Depp se tornou amigo de um tal de Nicolas Cage, sobrinho de um tal de Francis Coppola. Convidado pelo amigo a participar de uma produção B chamada A Hora do Pesadelo Depp não pensou duas vezes e aceitou, afinal um filme poderia ser uma boa promoção para sua futura carreira como guitarrista – nessa época Depp já tocara com nada menos que quinze bandas diferentes, uma delas o The Kids, chegou a abrir shows para o roqueiro glam Iggy Pop. O filme, é claro, tornou-se um cult e Johnny Depp acabaria picado pela mosca azul da sétima arte.

Depois de ser estripado por Freddy Krueger Johnny emplacou uma ponta em Platoon, o filme-coqueluche de 86 e acabou aterrissando na serie televisiva Anjos da lei. O seriado sobre jovens policiais infiltrados entre a bandidagem faria um enorme sucesso no mundo inteiro e colocaria o nome de Depp em franca evidência. Apesar de Depp ter detestado o trabalho Eu queria morrer. Na televisão somos vendidos como um hot-dog, eu desprezo isso diria o ator. Além de talentoso Johnny também mostrou ser um sujeito de sorte. Com o fim de Anjos da Lei – que durou de 87 a 90 – Depp acabaria conhecendo aquele que seria seu parceiro mais freqüente nas telas: Tim Burton.

Burton, ex-animador dos estúdios Disney e dark de carteirinha achou no andrógino Depp ator ideal para o seu próximo filme. Burton tinha visto Johnny em Cry-Baby, filme meio maluco onde o ator faz um líder de gangue que chora por um olho só. O filme não é grande coisa, mas Burton viu em Johnny o protagonista do conto de fadas gótico que trazia em mente, Edward Mãos-de-Tesoura. Mesmo sem ser um filme… vá lá… … convencional… Edward fez um sucesso danado iniciando uma dobradinha que dura até hoje. O diretor e o ator ainda fariam juntos o ótimo Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, o remake da Fantástica Fábrica de Chocolate e a animação stop-motion A Noiva Cadáver, onde Johnny deu voz ao personagem principal. Todos – sem exceção – filmes escuros, esquisitos, excêntricos. O gosto por papéis bizarros é, aliás, a maior marca da grife Johnny Depp. Saca só: o sujeito já foi um frankstein moderno em Edward Mãos-de -Tesoura, um biruta que pensa ser Don Juan no delicioso Don Juan deMarco, o pior diretor do mundo em Ed Wood, um repórter alucinado no psicodélico Medo e Delírio, um delator do FBI em Donnie Brasco, o criador do Peter Pan em Busca da Terra do Nunca, um escritor assombrado por seu próprio personagem em A Janela Secreta e um detetive vitoriano que se enche de ópio para descobrir a identidade de Jack o estripador em Do Inferno (Depp, surpresa, é um verdadeiro especialista na história do estripador londrino). E Isso só para citar os nomes mais conhecidos da galeria Depp de tipos estranhos.

Se na tela grande Johnny é o esquisitão de plantão, na vida pessoal as coisas não são muito diferentes. Além de já ter se casado um monte de vezes, o ator namorou várias beldades como Kate Moss, Jannifer Grey e Winona Rider (depois do namoro a tatuagem Winona Forever que Depp trazia no braço virou Wino Forever, Bêbado para Sempre). Todas relações complicadas que acabaram nas capas dos tablóides. Johnny também virou notícia por quebrar quartos de hotéis, arremessar armários pela janela e encher de supapos jornalistas curiosos. E para piorar de vez com a já nebulosa fama do rapaz basta citar que foi na sua boate, a Viper Room, que o jovem ator River Phoenix tomou sua overdose fatal. Hoje, vivendo em Paris e casado com a cantora Vanessa Paradis e com dois filhos Johnny parece estar mais calmo. Pelo menos parece.

Com a moral em alta Johnny decidiu em 97 pular para trás das câmeras. Escreveu, produziu, atuou e dirigiu O Bravo, filme mediano que contou com a participação de seu grande amigo e ídolo confesso Marlon Brando. Ao contrário de outros astros como Mel Gibson ou Robert Redford Depp não logrou grande êxito atrás das câmeras, mas é incontestável que hoje o ex-roqueiro e ex-rebelde é uma estrela de primeira grandeza. Depois do sucesso do seu divertido capitão Jack Sparrow – inspirado no guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards – do Blockbuster Piratas do Caribe Johnny também se mostrou um eficiente chamariz de bilheteria. Não é à toa que os próximos dois filmes da série foram filmados simultaneamente, e já há planos para mais três continuações. Todas com Johnny encabeçando o elenco. Nada mal para quem sonhava em ser apenas um guitarrista de banda de rock. Sonhava? De quem vocês acham que é a guitarra da faixa Fade-in-out do disco Be Here Now , álbum de maior sucesso do Oásis?

:: Retirado do site: Adoro Cinema, Seção Colunas, Matérias Especiais, escrito por Rodrigo Fernandes.