Epoca Entrevista Johnny Depp

Um pirata com cara de roqueiro
Como Johnny Depp domou a rebeldia e se tornou um dos atores mais valiosos do mundo

Mark Binelli, da Rolling Stone

Você; tem falado com o Keith?
Nãoo diretamente, mas com os dele. Ele está ótimo. Ele é…

Indestrutível?

É! Uma máquina.

Você o conhece há algum tempo?

Nós nos conhecemos provavelmente em 1994 ou 1995. É óbvio que, para qualquer um que tenha tocado uma guitarra, o Keith é um deus.

Você já tocou algo perto dele?

Não. Não tenho o cabelo apropriado para pegar uma guitarra e sair dedilhando. Nunca fui confiante assim – nem bêbado. Não conseguiria. A menos que ele me pedisse. Aí, quem sabe?

Estou imaginando o que você pensou quando ouviu a proposta para fazer Piratas. Porque, teoricamente, soa como uma péssima idéia.

Teoricamente, você está certo. O filme tem todos os sinais de um pesadelo.

Então, o que fez você embarcar?

Absolutamente nada, só instinto. Eu estava numa reunião com a Disney. Eles tinham me oferecido outro filme e eu o estava recusando. Mas minha filha tinha uns 3 anos na época e eu via absolutamente todas as animações da Disney. Estava bem no clima daqueles filmes e adorava o fato de os personagens de desenhos não terem limites. Então, eu dizia a eles que gostaria muito de fazer a voz de um personagem, quando me perguntaram: "Você conhece o tema ‘parque de diversão e suas atrações’? Estamos pensando em transformar os Piratas do Caribe em filme". Eu disse: "Tô nessa". Assim, de cara. Minha agente estava comigo e ficou chocada. Eu mesmo fiquei um pouco chocado.

Parece um pouco incomum, porque você sempre escolheu fazer filmes alternativos, fora da linha oficial.
Não sei por que eu disse sim. Não pensei: "Eu tenho de fazer um filme comercial". Nunca fui o tipo de pessoa que consegue prever "esse filme vai acontecer" ou "esse vai ser um grande lixo". E, até a metade do nono round, todo o mundo, inclusive a Disney, estava pensando: "Que roubada". Mais tarde, quando vinham me pedir para aprovar a exposição da minha imagem em caixa de cereal, ainda assim não me senti comprometido. Não era como se eu tivesse me vendido, mas como se tivesse infiltrado o campo inimigo e estacado minha bandeira. E agora ela está firme ali e estou no processo, então vamos ver no que vai dar. Amigos meus diziam: "Cara, meu Deus, isso não o tortura?". E eu dizia: "Nem a pau! Acho isso ótimo. É engraçado para mim".

Quando as pessoas falam de seu Jack Sparrow, elas normalmente mencionam Keith Richards, mas também indicam certa abordagem gay. Bom, eu li um ótimo livro… Como se chamava?
Sodomia e a Tradição Pirata (Sodomy and the Pirate Tradition). Muito interessante. Eu não ia exatamente por esse lado com o personagem. E o Keith não é extravagante em suas ações. Ele é bem discreto. Mas, com o Jack, senti que era uma boa idéia permanecer na ambigüidade, fazer de tudo um pouco… questionável. Porque as mulheres aprendiam que navios traziam mau agouro. E os piratas ficavam a bordo por anos a fio. Então, se é que você me entende, há a possibilidade de uma coisa levar à outra. Você está sozinho. Com bastante rum. (Encolhe os ombros) "Menino do navio!"

Você foi roqueiro na adolescência. Sua mãe aceitou numa boa?
Até que sim. Eu deixei a escola… feito um idiota. A música era tão importante para mim, era um santuário, me dava sensação de segurança absoluta. Na escola, eu não me sentia assim.

Algum show se destaca?
Abrimos para o Chuck Berry uma vez, em Atlanta. Naquela época, ele não tinha banda fixa. Aparecia na cidade e ali tinha de ter uma banda, uns locais. Acho que ele supôs que éramos a banda dele, então entrou no camarim, largou a guitarra – eu era um idiota, tinha 17 anos. Ele se acomodou, olhou para mim e disse: "O que é que foi, pirralho?". Respondi: "Nada, nada". Não tive coragem de dizer para ele que o camarim ficava no andar de cima. E então ele perguntou se a gente podia afinar a guitarra dele. Pegamos aquela 335 vermelha e a afinamos. Um monte de moleques.

Você já disse que usou drogas na adolescência. Como foi sua relação com as drogas durante a vida?
Quando eu era menino na Flórida, as drogas estavam por ali. Meus pais enfrentaram um divórcio pesado e acabei indo em direção às drogas por um tempo. Não diria que abusei, diria que as usava como automedicação. Nunca teve nada a ver com diversão para mim. Assim como a bebida, naquela época.

As pessoas fizeram um estardalhaço quando você se mudou para a França.

Chegaram a dizer que eu estava mandando os EUA se danar. É mais fácil fazer isso que lembrar que eu tenho uma casa na França, que meus filhos nasceram lá, que eu passeio por lá. Faz mais barulho dizer: "Ele abandonou os Estados Unidos! É um expatriado!". A verdade era menos interessante.

Quando você está em Los Angeles, sente nostalgia de seus dias mais aventureiros?

Nunca saí tanto como as pessoas pensam. Quando fico um pouco melancólico, acabo pensando em meus dias passados, quando vivia num quarto e cozinha perto de Hollywood Boulevard, sem um centavo. Fico só pensando. Havia muito mais tempo. Eu passava horas em sebos. Tenho saudade desse tempo. Talvez por causa do anonimato. Ou da inocência. Porque não foram exatamente dias maravilhosos.

O Marlon Brando foi um mentor para você. Vocês falavam de atuação?

Uma vez ele me perguntou: "Quantos filmes você faz por ano?". Eu respondi: "No ano passado, acho que fiz três". E ele disse: "Não faça muitos". Perguntei: "Por que não?". E ele: "Porque temos somente algumas caras no bolso". Já no fim, quando Brando falava sobre seu trabalho, estava displicente. Ele já não via nada demais nisso, sério. Um cara que era chamado de gênio desde 1947. Acho que ele estava infinitamente mais interessado na verdade.

Você imagina chegar a se desiludir com a profissão dessa forma?

Não. Quer dizer, sempre fui meio amargo, desde o começo. Nunca fiquei deslumbrado. Entrei numa área que não escolhi. E me transformaram nesse produto, a coisa virou uma bola de neve e eu não pude mais fazer nada a respeito. A reação natural, para mim, foi ralhar com isso. Fiquei furioso por um tempo. Mas, agora, não mais. O trabalho é ótimo. Eu tive empregos bem ruins na vida. E este é bom.