Fanfics: A Lua Vermelha

por Gabie Oderich

Olhava a lua. O que ela significava? Para uns, o símbolo do romantismo, para outros a chegada de mais uma noite dentre tantas outras que vieram e ainda estariam por vir. Porém nada disso se apetecia a ele, mesmo assim admirava-a pela janela e não pode conter o sorriso que escorregou pelo canto do lábio. Acariciou a lâmina. Ouvira o barulho da porta se abrindo, o que significava que mais um desavisado transeunte londrino havia se deixado enganar pela fama do ‘’melhor barbeiro de Londres’’. Enfim o primeiro cliente da noite, porém mais um entre dezenas e dezenas de outros coitados que entregaram a vida nas mãos de um vingativo homem ao passarem por aquela porta. Mais um.

Ah, aquelas pessoas sem alma, parasitas que figuravam nas ruas sem qualquer utilidade… Ah, o prazer que lhe invadia as veias ao contribuir para a extirpação total dessa raça imunda era indescritível. Sorria ao pressionar a lâmina naquela garganta ‘inocente’, seus olhos brilhavam de ódio. Ou, talvez também contivessem uma nota deturpada de desejo. Desejo de morte.

E o corpo se fora. E ele vibrara durante todo o processo: desde a coloração vermelha do sangue que encharcava suas roupas até o som dos ossos se partindo ao tocarem violentamente o chão de mármore que era palco daquela fábrica de horrores. Trocava a toalha que pendia no pescoço, jogando a mesma em qualquer canto que fosse imperceptível e retomava o ofício, ainda ofegando pela satisfação iminente de mais uma morte. O que os outros chamavam de culpa, ele chamava de alívio.

Ajeitou a cadeira, minuciosamente. Sorriu para o próximo cliente, ou vítima, antes de arrebatar sua vida em meio a muito sangue, desespero e vingança, mas antes deu mais uma olhada na lua. Ela parecia sorrir para ele, como se estivesse avisando de que sua vingança estava prestes a se completar e ele lia isso em seu brilho. Porém ele também, em sua celestial inocência, esquecera de ler também que a vingança que tanto esperava viria acompanhada de uma dose cavalar de culpa, a culpa que ele ignorava enquanto, mais uma vez, cravava a impetuosa amiga arrebentando mais uma garganta enquanto sorria.