Prefácio no livro de memórias de Joe Perry

 

Johnny Depp escreveu o Prefácio do livro de memórias de Joe Perry. Mais um brilhante texto de Johnny.
English/Português
Prefácio por Johnny Depp

Enquanto me assento aqui diante do mais barulhento pedaço de papel carbono que delicadamente posicionei em minha robusta máquina de escrever “Olympia”, que provavelmente merece um operador mais apreensivo e equilibrado e, “voalá”, lamentável é o seu destino ao ser manuseado pelos minhas ineptas e desajeitadas digitais; o papel grita para que eu faça o primeiro movimento.

Meus pensamentos estão carregados com o desafio de escrever algumas palavras sobre um homem. Um artista. Um importante, mais que isso, artista eminente, não apenas para mim, mas para muitos outros. Um extraordinário guitarrista. Um herói cuja habilidade imensurável o elevou ao mais alto patamar diante de todas as listas dos maiores guitarristas que se sucederam desde que ele criou algumas das notas mais saborosas e enfurecidas já liberadas para um mundo inconsciente. Um herói a quem foi me dada a honra de poder chamar de amigo e irmão.

Ponderá-lo — o homem, o mentor — o dilúvio de imagens é surpreendente. Estou congestionado de visões, varrido, quase que catapultado de volta ás boas lembranças de uma juventude (fod**a) com tudo e nada para seguir adiante. Será que mergulhei nessas coisas chichês que não deveria ter quando criança? De fato mergulhei (palavrão).
Com grande paixão, pura ignorância e gosto (palavrão). Por um bom tempo, a vida para mim era um interminável, frágil e perigoso acidente de trem esperando para acontecer. Porém nenhuma auto-medicação, bebida ou substância química tivera o efeito que um trecho de música solitária poderia fazer. Nem de perto.

Vejam bem, esse homem (fod**o) de meia idade foi uma vez essa criança (fod**a). Com doze anos, ou quase isso. Sentado no banco de trás do carro dos meus pais. Estávamos presos no tráfego nos arredores do supermercado “Publix” e da drogaria Eckerd, onde ocorria um evento local no estacionamento. Uma banda estava tocando. À medida que chegamos ao semáforo, avistei as cores mudando em volta dos músicos em silhueta com muita atenção. Fiquei fascinado. Totalmente. E quando o som e visão se impuseram sobre o provincial compacto de pastas que giravam para fora do pequeno cérebro, eu sabia. De repente tudo ficou em ordem. A música que eles tocavam era “Dream On”. Nunca precisei tanto daquele momento, daquela música, ou daquela (po**a) de realização em progresso, esclarecendo o real motivo da minha existência e o que eu precisava fazer para me manter são e vivo: Eu precisava de uma guitarra…e logo!

Com grana dificilmente entrando em meus bolsos, eu dei um jeito de conseguir vinte e cinco dólares da minha mãe pra pagar uma (N/T: guitarra) Decca elétrica. O primeiro disco do Aerosmith e um livro de acordes “Mel Bay” tiveram que ser escondidos dentro da minha calça e jaqueta (medidas extremas e toda aquela coisa). Eu tocava aquele disco e estudava o livro de acordes como se fosse uma linguagem santa. A puberdade passou quase que despercebida. Me desliguei do mundo, fiquei enfurnado em meu pequeno quarto, praticando e praticando…Precisava atingir uma nota perfeita.

E assim minha vida começou.

Agora, pra mim, como um adolescente tímido e desleixado, o nome Joe Perry iria invocar uma referência de espécies que eu nunca havia conhecido, principalmente nos primeiros anos quando todos os tipos de professores, não importa o quanto se esforçavam, não conseguiam penetrar meu cérebro o suficiente para extrair algum respeito. Nada no mundo existia além da guitarra e daqueles que conseguiam dominá-la como a última forma de expressão…O meio perfeito para um recluso de doze anos desabafar seu temperamento sério.

Joe Perry era um dos poucos nomes naquela época — ao lado do definitivo maestro, Keith Richards – que conseguiria inspirar qualquer senso genuíno de reverência na minha mente adolescente, estimulando corpo e espírito á se importar de fato (palavrão). Eles eram de uma laia nunca antes encontrada — semelhante a encomendar maconha aprovada pelo governo e tê-la entregue à sua porta pessoalmente por Obama. Improvável …

Mas cada pavio precisa de sua pedra (N/T: de isqueiro) e neste caso a genialidade de Joe era capaz de florescer plenamente quando fundido com outro gênio, o profundamente fervoroso, exibicionista quase-evangélico Steven Tyler, que acabou por criar um dos mais incríveis conjuntos de gaitas, cheios de soul que jamais existira, acompanhado pela brilhante musicalidade de Brad Whitford, Tom Hamilton e Joey Kramer. Outro alguém, por vezes silencioso membro da banda que eu gostaria de saudar é o lendário produtor e ser humano maravilhoso, Jack Douglas, que esteve sentado à frente para os registros iniciais, orientando-os, dirigindo-os. Sem dúvida sua dedicação provou ser mais do que essencial para o incrível sucesso. Ao longo dos anos a banda sofreu altos e baixos, como vocês lerão muito aqui, e apesar de tudo eles ultrapassaram a grande maioria de suas rivalidades e continuam seguindo fortes hoje, tendo sobrevivido e finalmente superado as muitas épocas e tendências que tendiam á entidades bem menores do que eles próprios.

Cortando para 2010, Hollywood, Califórnia. Estúdio de gravações “Swing House”, logo depois da Sunset Boulevard. Steven Tyler perambula pelo recinto como um gato selvagem cheio de energia. Ele gentilmente convidou um amigo e eu para assistir a banda gravar algumas faixas do seu novo álbum. E lá estava Joe Perry. Bem ali, no canto, visível na escuridão. Ele me chamou e sentamos lá, ele me tolerava, conversando sobre guitarras e mostrando os efeitos que ele estava usando para o que eventualmente se transformaria no “Music from Another Dimension!” Foi um grande momento para mim, sentar-me naquele recinto cheio de ídolos, com esse ídolo em particular me dando atenção, ainda mais confiando em mim. E desde então, desde aquela tarde impossível, eu experimentei o imensurável prazer de tocar no Hollywood Bowl, entre outros palcos, com Joe, Steven e os garotos. Entretanto a noite que conquistou o lugar mais especial em meu coração foi quando aquela dupla primitivamente tóxica viera tocar musica com meu filho Jack, em sua festa de aniversário alguns anos atrás. Éramos como uma dupla de fãs, eu e ele — em total deslumbre! Eu era aquela criancinha novamente, quase da mesma idade do meu filho.

Uma vida poética era o destino do Joe. Ele nasceu com estilo. Ele pode ter se espelhado nos gigantes antes dele, como todos devem fazer, mas ele transformou todo aquele aprendizado em um som próprio, só dele (N/T: como uma assinatura). A forma como ele usa as notas musicais é tão pessoal e único quanto uma conversa que você poderia ter com o cara. É como ele se comunica. Ele é um mestre dos sentimentos, e com uma guitarra em mãos, sua musculatura, sons rítmicos soam sem esforços, capturando todos pelos ouvidos, refletindo a despretensão inerente de sua capacidade. Tem algo primordial na natureza de suas performances “that just flat-out (palavrão) rocks”, convidando a todos para testemunharem e experimentarem. Não há nenhuma lista de convidados elitista aqui. Sem VIPs. Não é necessário nenhum passe para os bastidores.

Se você estiver com esse livro em mãos, à parte da própria música, você terá tudo que sempre irá precisar. O coração e alma do próprio cara, arremessado fielmente na página. O sábio quieto finalmente fala! Você irá notar a natureza sagaz de um homem totalmente sensato. Sem brincadeira (palavrão). Desprovido, claro e simples. Toda a timidez, a honestidade, o amor, suor, lágrimas e a humanidade dessa misteriosa criatura o (a) espera, amigos, de seu inicio até o agora…e seja lá mais o que estiver por vir pela frente.

Este livro é um presente. Um volume sagrado, até. Uma fatia até então secreta da vida, emitida diretamente de um dos maiores deuses da guitarra que já caminhou sobre a terra, ou subiu um palco, ou se alastrou dentro da mente de uma jovem alma á procura do significado da (po**a) toda.

Antes de me despedir de vocês tenho um pensamento final pelo qual me sinto impelido a transmitir. Enquanto lia esse conto eu não podia deixar de ouvir continuamente as últimas linhas do brilhante prefácio de Willian Sarayan sobre sua peça “The Time of Your Life”. As palavras de Saroyan resumem lindamente Joe como marido, pai, e homem: “No tempo de sua vida, viva — só que nesse tempo maravilhoso você não deve acrescentar as misérias e as tristezas do mundo, mas deve sorrir para o deleite infinito e mistério do mesmo.”

— Johnny Depp

Boston, Massachusetts

6 de Junho, 2014

Traduzido por Jay/DeppLovers

Edit.: Acrescentando a nota da Adriana: Flat-out significa acelerar, andar a todo vapor. Neste caso, Johnny quer dizer que a atuação de Perry é tão boa que acelera até as pedras.

Texto Original:

Foreword by Johnny Depp (Prefácio de Johnny Depp)

As I sit here before a most cacophonous piece of blank onion skin, which I ever so delicately stuffed into my sturdy Olympia typewriter, and which surely deserves a more appreciative and well-balanced operator, but alas, such is its lamentable fate to be clubbed by my inept and clumsy digits, the paper screams for me to make the first move.

My thoughts are charged with the challenge of writing a few words on a man. An artist. A significant, nay, eminent artist, not only for me but for many others. A guitarist extraordinaire. A hero whose immeasurable ability has sent him high onto every Greatest Guitar Player list going ever since he sliced through some of the most tasteful and raging notes to be unleashed on an unwitting world. A hero who I’ve been given the honor to call both friend and brother.

Pondering him — the man, the mentor — the flood of imagery is astounding. I am swarmed by visions, swept away, almost, happily catapulted backward into fond memories of a (expletive)-up youth, with everything and nothing to look forward to. Did I delve into all those clichéd Things That I Shouldn’t Have as a kid? Indeed, (expletive) did. With great passion, pure ignorance, and (expletive) gusto. For a good while there, life for me was an endless, rickety, and dangerous train wreck just waiting to happen. But no self-medication, no booze or chemical what-have-you, has ever done what a solitary sliver of music could do. Not even close.

You see, this middle-aged (expletive)-up was once that (expletive)-up kid. Aged twelve, or thereabouts. Sitting in the backseat of my folks’ car. We were caught up in traffic outside the Publix supermarket and Eckerd drugstore, where there was some local to-do occurring in the parking lot. A band was playing. As we hit the stoplight, I watched the colors change around the musicians in silhouette with rapt attention. I was captivated. Wholly. And as the sound and vision imposed themselves upon the provincial, compact folds of that spun-out little brain, I knew. Suddenly, everything was in order. The song they were playing was Dream On. Never more had I needed that moment, that song, or that bat-(expletive) realization, clarifying the very reason for my existence and what I needed to do in order to stay sane and alive: I needed a guitar … and quick!

With hard green cash never having bothered my pocket before, I managed to wrangle twenty-five bucks from my mom to pick up a Decca electric. The first Aerosmith record and a Mel Bay chord book had to be stuffed down my trousers and jacket. (Desperate measures and all that.) I played that record and studied the chord book as if it were some holy language. Puberty went by almost unnoticed. I shut myself off from the world, holed up in my little room, practicing, practicing, and practicing again. … I had to be note perfect.

And thus my life began.

Now, for me, as a shy, scruffy teen, the name Joe Perry would invoke a reverence for a species I had never known, especially in those early years when all teacher types, no matter how hard they tried, could not penetrate my brain enough to command any respect. Nothing in the world existed aside from the guitar and those who had mastered it as the ultimate form of expression … the perfect medium for a reclusive twelve-year-old to vent some serious spleen.

Joe Perry was one of the very few names back then — aside from everyone’s ultimate music maestro, Keith Richards — who could inspire any sense of genuine awe into my adolescent mind, galvanizing body and spirit into actually giving a (expletive). They were of an ilk never before encountered. The idea of meeting these untouchable heroes in real life was absurd — akin to ordering government-approved marijuana and having it delivered to your door personally by Mr. Obama. Unlikely …

But every tinder needs its flint, after all, and in this case, the genius of Joe was able to fully bloom when fused with another musical genius, that of the profoundly fervent, nigh-evangelical showman Steven Tyler, who just so happened to harbor one of the finest, most soulful set of pipes ever to have existed, all accompanied and brought to the fore by the brilliant musicianship of Brad Whitford, Tom Hamilton, and Joey Kramer. One other, sometimes unspoken member of the band that I would like to salute is the legendary producer and all-around wonderful human being Jack Douglas, who sat at the helm for those early records, guiding them, directing them. No doubt his input proved to be beyond integral to their incredible success. Over the years, the band has suffered its ups and downs, as you will read much of here, but all in all they’ve outlasted the vast majority of their peers and are still going strong today, having survived and ultimately surpassed the many brief epochs and trends tended to far lesser entities than themselves.

Cut to 2010. Hollywood, California. Swing House Recording Studios, just off Sunset Boulevard. Steven Tyler prowls about the room like a high-octane jungle cat. He had kindly invited a friend and me to watch the band record a few tracks for the new album. And there is Joe Perry. Right there, in the corner, just visible in the dark. He called me over and we sat there, he indulging me, discussing guitars and showing me the effects he was using for what would eventually become Music from Another Dimension! It was a huge moment for me, to sit there in a room full of idols, with this particular idol paying me any attention whatsoever, let alone confiding in me. And since then, that impossible afternoon, I’ve experienced the immeasurable pleasure of playing the Hollywood Bowl, among other stages, with Joe, Steven, and the boys. Although the night that holds the most special place in my heart was when that formerly toxic twosome came and played music with my son, Jack, for his birthday party a few years ago. He and I were like a couple of fans — in total awe! I was that little kid again, nearly the same age as my son.

A poetic life was Joe’s fate. He was born with a style. He may have gleaned from the greats before him, as everyone must, but he transformed all that learning into his own signature sound. The way he uses musical notes is as personal and unique as any conversation you could ever have with the man. It’s how he communicates. He is a master of feel, and with guitar in hand, his muscular, rhythmic tones soar effortlessly, seizing all those in earshot, reflecting the inherent unpretentiousness of his ability. There is something primordial in the nature of his grooves that just flat-out (expletive) rocks, inviting everyone to witness and experience. There’s no elitist guest list here. No VIPs. No backstage pass is needed.

If you’re holding this book in your hands then, aside from the music itself, you have all that you will ever need. The heart and soul of the man himself, hurled faithfully at the page. The wise, silent one finally speaks! You’ll note the sagacious nature of a wholly sapient man. No (expletive). Devoid of it. Plain and simple. All the shyness, the honesty, the love, sweat, tears, and humility of this mysterious creature awaits you, friends, from his beginnings all the way to the here and now … and whatever might still be to come.

This book is a gift. A sacred tome, even. A hitherto secret slice of life, beamed in directly from one of the greatest guitar gods to have ever walked the earth, or stepped on a stage, or raged inside the mind of a young soul searching for what the (expletive) it all means.

Before I leave you I have one final thought that I feel impelled to convey. While I was reading this tale I could not help but continually hear, as if on a loop, the last lines of William Saroyan’s brilliant preface to his play The Time of Your Life. Saroyan’s words beautifully sum up Joe the husband, the father, the man: “In the time of your life, live —so that in that wondrous time you shall not add to the misery and sorrow of the world, but shall smile to the infinite delight and mystery of it.”

— Johnny Depp

Boston, Massachusetts

June 6, 2014