“Rocks: My Life in and out of Aerosmith”

Autor – Joe Perry com David Ritz
Prefácio por Johnny Depp

Prefácio por Johnny Depp

Enquanto me assento aqui diante do mais barulhento pedaço de papel carbono que delicadamente posicionei em minha robusta máquina de escrever “Olympia”, que provavelmente merece um operador mais apreensivo e equilibrado e, “voalá”, lamentável é o seu destino ao ser manuseado pelos minhas ineptas e desajeitadas digitais; o papel grita para que eu faça o primeiro movimento.

Meus pensamentos estão carregados com o desafio de escrever algumas palavras sobre um homem. Um artista. Um importante, mais que isso, artista eminente, não apenas para mim, mas para muitos outros. Um extraordinário guitarrista. Um herói cuja habilidade imensurável o elevou ao mais alto patamar diante de todas as listas dos maiores guitarristas que se sucederam desde que ele criou algumas das notas mais saborosas e enfurecidas já liberadas para um mundo inconsciente. Um herói a quem foi me dada a honra de poder chamar de amigo e irmão.

Ponderá-lo — o homem, o mentor — o dilúvio de imagens é surpreendente. Estou congestionado de visões, varrido, quase que catapultado de volta ás boas lembranças de uma juventude (fod**a) com tudo e nada para seguir adiante. Será que mergulhei nessas coisas clichês que não deveria ter quando criança? De fato mergulhei (palavrão).
Com grande paixão, pura ignorância e gosto (palavrão). Por um bom tempo, a vida para mim era um interminável, frágil e perigoso acidente de trem esperando para acontecer. Porém nenhuma auto-medicação, bebida ou substância química tivera o efeito que um trecho de música solitária poderia fazer. Nem de perto.

Vejam bem, esse homem (fod**o) de meia idade foi uma vez essa criança (fod**a). Com doze anos, ou quase isso. Sentado no banco de trás do carro dos meus pais. Estávamos presos no tráfego nos arredores do supermercado “Publix” e da drogaria Eckerd, onde ocorria um evento local no estacionamento. Uma banda estava tocando. À medida que chegamos ao semáforo, avistei as cores mudando em volta dos músicos em silhueta com muita atenção. Fiquei fascinado. Totalmente. E quando o som e visão se impuseram sobre o provincial compacto de pastas que giravam para fora do pequeno cérebro, eu sabia. De repente tudo ficou em ordem. A música que eles tocavam era “Dream On”. Nunca precisei tanto daquele momento, daquela música, ou daquela (po**a) de realização em progresso, esclarecendo o real motivo da minha existência e o que eu precisava fazer para me manter são e vivo: Eu precisava de uma guitarra…e logo!

Com grana dificilmente entrando em meus bolsos, eu dei um jeito de conseguir vinte e cinco dólares da minha mãe pra pagar uma (N/T: guitarra) Decca elétrica. O primeiro disco do Aerosmith e um livro de acordes “Mel Bay” tiveram que ser escondidos dentro da minha calça e jaqueta (medidas extremas e toda aquela coisa). Eu tocava aquele disco e estudava o livro de acordes como se fosse uma linguagem santa. A puberdade passou quase que despercebida. Me desliguei do mundo, fiquei enfurnado em meu pequeno quarto, praticando e praticando…Precisava atingir uma nota perfeita.

E assim minha vida começou.

Agora, pra mim, como um adolescente tímido e desleixado, o nome Joe Perry iria invocar uma referência de espécies que eu nunca havia conhecido, principalmente nos primeiros anos quando todos os tipos de professores, não importa o quanto se esforçavam, não conseguiam penetrar meu cérebro o suficiente para extrair algum respeito. Nada no mundo existia além da guitarra e daqueles que conseguiam dominá-la como a última forma de expressão…O meio perfeito para um recluso de doze anos desabafar seu temperamento sério.

Joe Perry era um dos poucos nomes naquela época — ao lado do definitivo maestro, Keith Richards – que conseguiria inspirar qualquer senso genuíno de reverência na minha mente adolescente, estimulando corpo e espírito á se importar de fato (palavrão). Eles eram de uma laia nunca antes encontrada — semelhante a encomendar maconha aprovada pelo governo e tê-la entregue à sua porta pessoalmente por Obama. Improvável …

Mas cada pavio precisa de sua pedra (N/T: de isqueiro) e neste caso a genialidade de Joe era capaz de florescer plenamente quando fundido com outro gênio, o profundamente fervoroso, exibicionista quase-evangélico Steven Tyler, que acabou por criar um dos mais incríveis conjuntos de gaitas, cheios de soul que jamais existira, acompanhado pela brilhante musicalidade de Brad Whitford, Tom Hamilton e Joey Kramer. Outro alguém, por vezes silencioso membro da banda que eu gostaria de saudar é o lendário produtor e ser humano maravilhoso, Jack Douglas, que esteve sentado à frente para os registros iniciais, orientando-os, dirigindo-os. Sem dúvida sua dedicação provou ser mais do que essencial para o incrível sucesso. Ao longo dos anos a banda sofreu altos e baixos, como vocês lerão muito aqui, e apesar de tudo eles ultrapassaram a grande maioria de suas rivalidades e continuam seguindo fortes hoje, tendo sobrevivido e finalmente superado as muitas épocas e tendências que tendiam á entidades bem menores do que eles próprios.

Cortando para 2010, Hollywood, Califórnia. Estúdio de gravações “Swing House”, logo depois da Sunset Boulevard. Steven Tyler perambula pelo recinto como um gato selvagem cheio de energia. Ele gentilmente convidou um amigo e eu para assistir a banda gravar algumas faixas do seu novo álbum. E lá estava Joe Perry. Bem ali, no canto, visível na escuridão. Ele me chamou e sentamos lá, ele me tolerava, conversando sobre guitarras e mostrando os efeitos que ele estava usando para o que eventualmente se transformaria no “Music from Another Dimension!” Foi um grande momento para mim, sentar-me naquele recinto cheio de ídolos, com esse ídolo em particular me dando atenção, ainda mais confiando em mim. E desde então, desde aquela tarde impossível, eu experimentei o imensurável prazer de tocar no Hollywood Bowl, entre outros palcos, com Joe, Steven e os garotos. Entretanto a noite que conquistou o lugar mais especial em meu coração foi quando aquela dupla primitivamente tóxica viera tocar musica com meu filho Jack, em sua festa de aniversário alguns anos atrás. Éramos como uma dupla de fãs, eu e ele — em total deslumbre! Eu era aquela criancinha novamente, quase da mesma idade do meu filho.

Uma vida poética era o destino do Joe. Ele nasceu com estilo. Ele pode ter se espelhado nos gigantes antes dele, como todos devem fazer, mas ele transformou todo aquele aprendizado em um som próprio, só dele (N/T: como uma assinatura). A forma como ele usa as notas musicais é tão pessoal e único quanto uma conversa que você poderia ter com o cara. É como ele se comunica. Ele é um mestre dos sentimentos, e com uma guitarra em mãos, sua musculatura, sons rítmicos soam sem esforços, capturando todos pelos ouvidos, refletindo a despretensão inerente de sua capacidade. Tem algo primordial na natureza de suas performances “that just flat-out (palavrão) rocks”, convidando a todos para testemunharem e experimentarem. Não há nenhuma lista de convidados elitista aqui. Sem VIPs. Não é necessário nenhum passe para os bastidores.

Se você estiver com esse livro em mãos, à parte da própria música, você terá tudo que sempre irá precisar. O coração e alma do próprio cara, arremessado fielmente na página. O sábio quieto finalmente fala! Você irá notar a natureza sagaz de um homem totalmente sensato. Sem brincadeira (palavrão). Desprovido, claro e simples. Toda a timidez, a honestidade, o amor, suor, lágrimas e a humanidade dessa misteriosa criatura o (a) espera, amigos, de seu inicio até o agora…e seja lá mais o que estiver por vir pela frente.

Este livro é um presente. Um volume sagrado, até. Uma fatia até então secreta da vida, emitida diretamente de um dos maiores deuses da guitarra que já caminhou sobre a terra, ou subiu um palco, ou se alastrou dentro da mente de uma jovem alma á procura do significado da (po**a) toda.

Antes de me despedir de vocês tenho um pensamento final pelo qual me sinto impelido á transmitir. Enquanto lia esse conto eu não podia deixar de ouvir continuamente as últimas linhas do brilhante prefácio de Willian Sarayan sobre sua peça “The Time of Your Life”. As palavras de Saroyan resumem lindamente Joe como marido, pai, e homem: “No tempo de sua vida, viva— só que nesse tempo maravilhoso você não deve acrescentar as misérias e as tristezas do mundo, mas deve sorrir para o deleite infinito e mistério do mesmo.”

— Johnny Depp

Boston, Massachusetts

6 de Junho, 2014

Traduzido por Jay/DeppLovers

Edit.: Acrescentando a nota da Adriana: Flat-out significa acelerar, andar a todo vapor. Neste caso, Johnny quer dizer que a atuação de Perry é tão boa que acelera até as pedras.