Tradução da Entrevista para a Revista belga So Soir Magazine (Fev 2018)

Revista belga So Soir, em uma entrevista exclusiva: As confidências de Johnny Depp em “So Soir”
A matéria faz parte da campanha de divulgação do Eau de Parfum Sauvage da Dior.

Imagens >>> Revista Francesa So Soir – (fevereiro 2018)

As confidências de Johnny Depp em “So Soir”: “Posso fazer tudo na frente da câmera”

É como parte de seu papel como embaixador da Dior que nós conseguimos essa entrevista com Jack Sparrow. O ator americano encarna para a Casa Parisiense algo “selvagem”, alguma interpretação de liberdade, mas não só isso. Nós descobrimos explorando Johnny Depp, um questionamento intenso sobre si mesmo, o trabalho com personagens que se baseiam mais no sentimento, um relacionamento com a musicalidade das emoções, uma personalidade ao mesmo tempo complexa e desinteressada… Quando perguntado para se definir, o homem se mostra um tanto singular e expressa uma certa limitação. Eu gosto de ficar na sombra, um pouco para trás. Prefiro o escuro do que a luz, eu sou uma pessoa tímida. É engraçado porque quando eu desempenho um papel, eu não tenho limite, eu posso fazer qualquer coisa na frente da câmera. É bastante confuso ficar mais confortável na frente da câmera do que ser você mesmo. Se eu tivesse que falar para fazer um brinde em um jantar, eu ficaria perdido. Enquanto quando eu atuo, um universo inteiro se abre para mim. Para Dior, o fotógrafo Jean-Baptiste Mondino pegou a parte de mim que não gosta de falar sobre palavras estranhas: “Celebridade”, “Glória” e toda essa merdè que não se encaixa com quem eu sou.

Falar, portanto, parece ser um passo primordial e temido para o ator que se construiu através dos ícones do cinema mudo.
Quando eu era pequeno, aos domingos, eu assistia TV. Eu lembro do canal PBS (canal público americano, nota do editor), que transmitia filmes mudos: Charlot, Buster Keaton … Todos esses caras me inspiram. Eles me deixam maravilhado. Só mais tarde que você percebe que eles não tinham o luxo de falar. Era necessário dizer tudo com as emoções, os olhos, a linguagem do corpo. Tinha que vir de uma verdade interior, caso contrário a mentira será vista nos olhos. Todos veriam isso. Durante todos aqueles anos quando eu assistia TV ou filmes, aqueles que me inspiravam eram pessoas reais. Uma vertente muito diferente: Charlie Callas ou Don Rickles, Foster Brooks – que costumava fazer uma ótima imitação de um bêbado – Dean Martin, Marlon Brando, Yul Brynner. Eles são claramente definidos como únicos. É isso que importa para mim. Eles não tentaram se parecer com os outros. Isso era o caminho deles.
Hoje, todos querem ser famoso apenas para ser famoso. Por que querer ser famoso? Eu não sei. Eu não ligo. Eu nunca fui assim.
Mas além do cinema, outros ícones masculinos marcam a vida do ator, ele tem uma definição de masculinidade que fala de honestidade e integridade: Era essencial para mim ter figuras masculinas fortes na minha vida. Meu pai e meu avô, sem dúvida. Desde que eu era adulto, os homens que tive a chance de conhecer ou conhecer bem são heróis, como Marlon Brando, que era um grande amigo, mas também um mentor, um professor, um irmão … Eu acho que um homem pode ser visto através do olhos. Uma das definições de homem, é ver através dos olhos. Uma das coisas determinadoras de um homem, para mim, é ser fiel e leal, lutar contra as injustiças, desde as maiores até as menores, que são excessivas diariamente. Você tem que ser certo, você tem que ser digno de confiança.

EDWARD E A TRANSFORMAÇÃO

Essa exacerbada masculinidade contudo não é recorrente nos personagens encarnados pelo ator. No entanto, todos são queridos por ele, tudo abriu novas portas para ele. Todo mundo lhe permitiu aguçar uma faceta diferente de sua personalidade. E ele se mostra muito apegado a isso. Há necessariamente uma parte de mim em cada um deles, uma vez que cada personagem deve estar na verdade. Portanto cada personagem precisa ser fiel, para alguns, nos sentimos muito seguros no simples ato de “ser”. Para ser Edwards Mãos de Tesoura, por exemplo, é ser capaz de ter um olhar muito puro sobre as coisas, ser totalmente aberto. Foi muito reconfortante. Esse menino não mentirá para esconder seus sentimentos. Impossível para ele fazer besteira, nada foi premeditado ou pré-fabricado.
Ao fazer este personagem, me senti completamente seguro … Então, pegue o personagem do Capitão Jack: Ele pode dizer tudo e qualquer coisa, mesmo que não faça sentido, e então tentar fazer isso ter sentido, exceto que isso faz tudo ainda mais confuso e totalmente abstrato, mas ele está manipulando isso. É louco! Ser Jack me dá um sorriso. Eu sempre me sinto insano quando o interpreto, ele é um personagem que incorpora tudo o que não sou. Eu posso ser impertinente, mas nunca fui extrovertido como ele. Eu sou tímido, encarnar Jack Sparrow, é desenhar suas singularidades em mim mesmo, isso me permite levantar o véu. Ao ser ele, eu posso ser absurdo e irreverente, tentar qualquer estupidez … É uma experiência todas as vezes.
Mas o personagem que o revelou foi Edward, cujas mãos de tesoura transformaram o jovem menino fofo de Anjos da Lei em um ator completo. Este homem hoje mede o impacto que o diretor Tim Burton fez em sua carreira. Quando eu o conheci, eu tinha acabado de fazer Cry-Baby, antes disso, eu estava atuando nesta série de TV e eu era o que eles queriam eu fosse e eles me vendiam. Eles estavam vendendo um produto, e eu me tornei um. Eles disseram quem eu era, o que eu era. Não era eu quem era mostrado, era uma imagem que eles queriam. Não tinha nada a ver comigo, e eu sabia que esse não era o meu caminho. Eu queria seguir meu próprio caminho, traçar meu caminho. Quando Jon Waters me escolheu para Cry-Baby, fiz o primeiro passo nesta estrada.
Mas quando você dá o primeiro passo, você sabe que o outro pé ainda está atrás de você. Você não está em equilíbrio. Foi quando eu conheci Tim, que me escolheu para fazer o seu papel, porque de alguma forma, Edward Mãos de Tesoura é uma versão fantasiada do Tim. Foi aí que eu me encontrei com os dois pés em terra firme. Eu tinha encontrado minhas bases. A partir daí, a bola estava no meu campo, e eu poderia fazer minhas próprias escolhas: aceitar ou recusar um filme … Foi um ponto de virada importante. Havia algo muito pessoal para Tim no personagem de Edward, visto que ele estava desenhando-o desde que ele era um adolescente. Edward nasceu da emoção universal de sentir-se mal na pele, falta de segurança, de dizer a mim mesmo “Eu tenho medo de mostrar minhas emoções porque eu irei me machucar” ou “Eu tenho medo de tocar em algo, medo de quebrar isso ou machucar a mim mesmo”. É um sentimento um tanto universal. Tim confiou em mim. Ele me deixou interpretar Edward em seu lugar. Eu penso que foi desconcertante para ele no início, muito estranho. Eu fui tomado por lágrimas enquanto eu lia o roteiro, porque eu entendi perfeitamente esse personagem de Edward e pensei que eu nunca seria escolhido para interpretá-lo. Eu quase cancelei meu encontro com Tim, a propósito. Eu tentei, de qualquer maneira. Pensei qual era o objetivo, vai me tomar como um ator de TV. Ainda assim, ele me deu o papel. Uma confiança inesperada que não o impediu de retrabalhar todo o cenário: Johnny queria que o personagem estivesse preso aos seus sentimentos… No roteiro original, eu cortei 70% dos diálogos de Edward. Frases completas. Ele falou muito. O que ele não disse foi muito mais importante do que o que ele disse, e o que ele sentiu é que importava. Você tem que ver sua emoção, não escutá-la, isso é mil de vezes mais importante. Existia uma réplica de Dianne Wiest no roteiro: “Onde está o seu pai?” A resposta de Edward era algo como “Ele está morto”. Isso é bastante definitivo. Como ele sabe o que é estar morto? Ele é totalmente inocente, você sabe. Como ele pode saber? Ele não falaria “Ele está morto”. Então eu mudei a frase para “Ele não acordou”, o que diz muito mais, eu acho. Isso foi uma coisa incrível para Tim e Caroline Thompson, a roteirista. Eu vim e contei para eles que eu quero cortar esse diálogos, e esses, e aqueles outra vez. No entanto, não existe ator que queria cortar seus diálogos. Mas quanto menos ele falou, melhor.

FAÇA SUAS ESCOLHAS

Uma vez impulsionado pelo universos das series de TV como um garoto bonito, o ator desfrutou do luxo de ser capaz de fazer suas escolhas, na vida e nos seus filmes: No início, quando eu comecei a me reconhecer e toda essa bagunça, uma das coisas mais insuportáveis para mim, eram os rótulos, aqueles que colocaram em você. Isso me deixou louco. Eles fazem de tudo para colocar um rótulo em você. Quando sua carreira começa a decolar e você escuta “Esse é o novo James Dean, blah, blah, blah”. Não, não e não. Eu nunca gostei desses rótulos. Além do mais, eu não gosto de pensar sobre o lado comercial, isso parasita tudo.
Mas como você faz escolhas profissionais, quando o reconhecimento e a fama não são levados em conta? Johnny Depp parece bem confortável com essa questão.
Tudo depende. Se existe um cenário, eu sei antes de ter finalizado as primeiras dez páginas, ou mesmo depois de três ou quatro páginas, mas eu ainda dou uma chance até as dez páginas. Eu escolho um projeto quando eu penso que tenho algo para contribuir para o filme, uma visão. Algo que não feito até a exaustão, em termos de performance ou interpretação. Algo que me toca ou me intriga. Lá, lendo, eu começo a ver imagens, as primeiras ideias sobre o personagem vêm até mim, e nove vezes em dez, a primeira ideia é a melhor. Jack Kerouac disse isso também “A primeira ideia é a melhor”. Ernest Hemingway também. Quando perguntado, “Como você se tornou um grande escritor?”. A resposta dele foi “Escreva a frase mais verdade que você conhece”. Isso parece simples, mas é muito difícil.
Sob o seu ar de ícone rock’n’roll, o ator parece ter lido muito e conhece os autores, mas porque ele é um ator, sua leitura vai através do prisma dos personagens, ele foca no humano e nas personalidades nos livros que o marcaram.
Existem personagens que me fascinaram, ou livros particularmente que me assombraram, e assim, você pode amar um personagem de livro. Eu amei por exemplo The Catcher in the Rye, mas eu nunca gostaria de ver esse personagem de Holden Caulfied no cinema. Holden deveria parecer como todos veem em sua mente, como Salinger descreve. Na verdade, existem personagens enormes, como Picasso, nós nunca o faríamos corretamente, é melhor não tocá-lo. Ou On the Road, por exemplo. Este livro de Kerouac era minha Bílbia quando eu era criança. Ainda é, além do mais, de vários pontos de vista. A influência dele é crucial, ele me ajudou a crescer. Eu nunca imaginei que esse livro fosse adaptado ao cinema. É muito bom, não toque nisso.

SEJA INSPIRADO NOVAMENTE E SE DEIXE SER LEVADO…

Nós sabemos que Johnny Depp também é um músico. Era mais para essa carreira que ele estava se orientando. Ele mostra não ter arrependimento, nenhum vazio, mas ele guarda um lugar em sua abordagem nos papéis e personagens que ele interpreta. A música é legal, sim. Eu era um músico. Eu tinha 12 anos quando eu comecei a tocar nas noites ao ar livre, onde todos bebiam cerveja. Então aos 13, eu comecei a tocar nos clubes de punk de Miami Beach, era desprezível. Eu tocava no palco e então esperava no fundo do clube porque eu era muito jovem para ser admitido. Eu deixei a escola com 15 anos. Eu passei noites inteiras tocando nos clubes, eu terminava por volta de 4 da manhã, e então ia para a aula. Isso não funcionou, obviamente. Guitarrista, era tudo que eu queria ser. Eu não me interessava em ser um ator. Eu comecei a atuar por necessidade. Alguém me pediu para eu fazer um filme, eu disse sim, e isso me permitiu pagar alguns meses de aluguel. Quando eu vi essa estrada se abrir para mim, eu a segui. Eu não desisti do meu sonho de ser um músico, apenas de trabalhar como um músico. Eu desconfio da ideia de que eu poderia tirar vantagem do sucesso que eu estou experimentando. Eu não queria ser aquele que diz “Legal, agora eu posso fazer música porque eu sou conhecido”. Eu tive que abandonar esse sonho por um tempo. Mas eu conduzo o trabalho como ator da mesma forma que como músico. É exatamente o mesmo: nós estudamos, nós aprendemos, nós escutamos. Eu sou um autodidata, eu aprendi a tocar guitarra enquanto escutava gravações. Isto levou meu ouvido, que me serviu quando eu tive que aprender a modular a voz, encontrar sotaques diferentes ou timbres para interpretar meus personagens. Eu fiz muitas imitações quando eu era criança. Eu acho que isso me ajudou a ter um bom ouvido. Eu uso isso todo dia no trabalho. Eu uso música para algumas cenas dos meus filmes. Quando você tem que escavar suas memórias para manifestar ou sentir algum sentimento particular, uma música pode nos levar até lá em poucos segundos. Algumas nos levam instantaneamente a uma memória específica. É através da música que nós encontramos memórias. Então eu uso muito isso.
E, finalmente, o formato do clipe publicitário parecer se adequar em quem não gosta quando existem muitos diálogos e quem gosta quando a música dá lugar as emoções. Nessa, a campanha de Dior Sauvage é uma experiência entre atuação e vídeos de música, dirigido por Jean-Baptiste Mondino com quem Johnny Depp parece ter construído um lindo relacionamento.
Para mim, foi positivo todo o caminho. Eu tenho apenas boas coisas para dizer sobre o que eu experimentei durante esta campanha. Foi a primeira vez para mim. E uma experiência muito diferente de meu trabalho de atuação. Quando eu estou no set e eu vou até as trincheiras, estou bem, mas existem dias em que você acorda e você tem que encontrar alguma energia para interpretar Jack Sparrow o dia todo. Existem dias quando nós esperamos até o dia de gravação terminar. Eu não vivi no projeto Sauvage, na verdade. Primeiramente graças ao Mondino, porque com ele, você apenas tem que ser verdadeiro. Não existia fórmula, sem pretensão. A gerência da Dior gostou da ideia de correr riscos. Tudo era muito elegante… Para vender um perfume, no final. E então, é até muito especial ver sua cabeça em um cartaz gigante na rua, é uma viagem.

Tradução do inglês para português feita por Natália Cintra Borghi, para o Depp Lovers
Favor dar os crédito ao repostar.

One thought on “Tradução da Entrevista para a Revista belga So Soir Magazine (Fev 2018)

  1. Liu says:

    Perfeito! Obrigada, equipe DL!

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